Uma coisa é olhar para o céu e tentar ver coelhos, flores ou frigideiras nas nuvens. Outra coisa é olhar para as manchas brancas lá no alto e saber identificar cirrostratus e altocumulus. Com o novo livro da Planeta Tangerina, as duas coisas são possíveis: a ideia é aprender a observar a natureza e saber tratar tudo pelos nomes.
Lá Fora é o maior volume alguma vez lançado pela premiada editora para crianças – mais de 350 páginas – e é, como diz o pós-título, um “guia para descobrir a natureza” de capa dura e lombada gorda. As ilustrações são de Bernardo P. Carvalho, um dos co-fundadores da Planeta Tangerina, e os textos são de duas biólogas: Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário, colegas de faculdade e fãs da editora há muito.
A ideia foi de Maria, 38 anos. “Tenho um entusiasmo enorme por ir lá para fora ver animais e tudo o que se passa na natureza, por isso é que fui para Biologia. E acho interessante como as crianças partilham desse entusiasmo e adoram ir ao Jardim Zoológico, por exemplo, mas quando adultos deixam de ligar a isso.” Foi para combater o movimento inverso – “o facto de as pessoas actualmente estarem tão voltadas para casa e os miúdos para os computadores, as televisões e as consolas”, acrescenta Inês – que nasceu Lá Fora. “Numa época em que há tanta concorrência de informação, o livro é uma tentativa de partilhar o nosso entusiasmo, mostrando ao mesmo tempo a enorme diversidade que temos.” “Portugal é um país pequeno mas onde acaba por haver muita variedade”, explica Inês. “Temos desde logo uma costa muito grande com uma grande diversidade de areias e rochedos, mas também temos zonas mais montanhosas e diferentes tipos de floresta.”

Dividido por grupos, dos “bichos e bicharocos” onde se incluem as minhocas, as lesmas, as formigas, as borboletas e os caracóis, às flores e aos mamíferos, onde se fala por exemplo de baleias e morcegos, Lá Fora está repleto de exemplos ligados ao país, tendo o cuidado de apontar em que região se podem observar as diferentes espécies retratadas. E nem os meios urbanos são esquecidos. “Mesmo que a nossa casa fique no meio da maior cidade do mundo, no meio de grandes avenidas cheias de carros, há sempre natureza lá fora. Há sempre céu e estrelas (mesmo que escondidos pelos arranha-céus), nuvens e chuva, árvores e flores, e animais, muitos animais”, lê-se logo na página 17. “Mesmo no centro de Lisboa há imensos passarinhos e animais interessantes”, reforça Maria. Basta pensar nos pombos, nas gaivotas e pardais que todos os dias se cruzam connosco.

Encontrar animais, folhas, estrelas e toda a fauna e flora à nossa volta não foi difícil, o que se revelou mais desafiante foi mesmo chegar ao discurso utilizado. “A regra era ter uma linguagem clara e simples mas ao mesmo tempo rigorosa”, diz Inês, ao que Maria junta, em tom de brincadeira: “Sempre tive um percurso científico, estou em Cambridge a trabalhar numa organização não-governamental [a BirdLife International], e como tenho que escrever relatórios complexos e ainda por cima noutra língua, pensei que ia ser fácil escrever para miúdos, mas na verdade foi mais difícil. É preciso saber muito bem do que se está a falar para conseguir partilhá-lo de forma simples.”
Para ajudar na tarefa, as autoras, em conjunto com a editora, juntaram vários miúdos para perceber que perguntas tinham eles na cabeça. “Se as minhocas não têm pernas, como é que conseguem andar?”, “como é que uma árvore consegue crescer tanto sem cair para o lado?” e “porque é que o mar é azul?” são apenas algumas das questões encontradas. O livro, “indicado sobretudo a partir dos oito anos mas sem limite de idade”, responde a isto e a muito mais: explica, por exemplo, porque é que as galinhas não voam, se são aves, e de que são feitas as escamas (neste caso, a resposta é queratina, “que também serve para fazer os nossos cabelos, pelos e unhas ou as penas e bicos das aves”). “Como o objectivo era que as pessoas fossem para a rua, para além das perguntas quisemos dar também sugestões de actividades”, diz Inês. É assim que o guia sugere passeios para procurar conchas de caracóis e pegadas ou ensina a construir um baloiço numa árvore, a montar uma caixa-ninho ou a fazer uma bailarina com uma papoila.

Tudo isto seria já à partida interessante, mas sem dúvida não seria tão bonito sem as ilustrações de Bernardo Carvalho que atravessam as 368 páginas e se espalham até pela contracapa, com uma surpresa original: num livro onde se fala tanto de natureza, não existe uma pinga de verde. “Quando começámos a receber os textos percebi que não valia a pena fazer coisas muito artísticas para elementos que era preciso reconhecer”, diz o ilustrador. “Mas ao mesmo tempo também queríamos que o livro tivesse uma vertente contemplativa, que ninguém sentisse que as coisas tivessem de estar tão ligadas à realidade.” A solução foi juntar as duas ideias. A parte realista foi assegurada por um caderno central, noutro papel, onde se reproduzem borboletas, anfíbios, árvores ou aves como num manual de Botânica ou Biologia (e aí há verde, sim). E a parte mais artística surgiu no próprio corpo principal, na forma de aguarelas a preto e branco onde foram incluídas duas personagens desenhadas apenas com contorno, a caneta preta. Já os animais, as folhas, rochas, patas e bicos foram sempre preenchidos em dois tons: azul e cor de laranja. Porque para ver as cores verdadeiras, escusado será dizer, o melhor mesmo é ir lá para fora.
Artigo publicado na edição nº 342 (16 de Abril de 2014) da Time Out Lisboa. Ilustrações de Bernardo Carvalho.
