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Catarina Sobral

Todos os dias passo pela montra da Papelaria Fernandes, no Rato, e os meus olhos batem num caderno onde se lê “everything starts from a dot”. No caso da Catarina Sobral, que acabou de vencer o prémio internacional de ilustração na Feira do Livro Infantil de Bolonha, começou mesmo. Não só com um ponto igual ao que está antes de qualquer desenho ou palavra, mas com pontos finais, pontos nos is, pontos dados no hospital e pontos de fuga – todos presentes no seu primeiro livro, e todos em Greve.

“A ideia surgiu num exercício auto-referencial em relação à banda desenhada”, no mestrado em ilustração tirado em Lisboa, contou-me a Catarina no dia em que a desafiei para um perfil na Time Out, no final de 2012. “A BD, tal como o livro ilustrado, é um meio híbrido em que o texto e a imagem se complementam, e eu pensei que podia pegar num elemento que fosse comum aos dois, e daí surgiu o ponto.” Ponto esse que, na versão ilustrada, e a par de uns quantos jogos de linguagem, ganhou vida através de colagens e desenhos feitos numa técnica chamada monotipia. “O mestrado para mim foi muito experimental e comecei a explorar as minhas referências, que vêm muito das artes plásticas, do construtivismo, do dadaísmo e do suprematismo. Achei também que a ideia de greve é um pouco revolucionária e pedia qualquer coisa mais acutilante.”

greve2

Quando nos encontrámos, dessa vez, eu queria perceber como é que alguém tão novo conseguia transformar coisas como preposições, verbos e gramática em livros para crianças, e como é que alguém tão “velho” (na altura, 27 anos), ainda conseguia pegar em lápis de cera para desenhar coisas como as livrarias mais bonitas do mundo, como aconteceu no segundo título, Achimpa, onde um investigador descobre a palavra do título num dicionário antigo e se lança na missão de descobrir o seu significado, que ninguém conhece.

Achimpa

“Sempre fui uma pessoa muito visual e sempre gostei muito de livros”, explicou simplesmente a Catarina. “Acho que é o meu objecto preferido, é muito bem desenhado e funciona, tanto que desde que foi inventado não se mudou praticamente nada. Creio até que fui para design porque queria fazer livros, e já no curso percebi que o que eu gostava mais de fazer eram as ilustrações para os trabalhos.”

Dos dois primeiros álbuns ligados à linguagem, em que era a própria língua que servia de ponto de partida, Catarina Sobral resolveu mudar tudo no terceiro e agora premiado livro, O Meu Avô. Não se deixem enganar pelo tamanho de 19 por 19 centímetros. Este livro pequeno é um livro enorme, onde cabem três gerações, uma reflexão sobre o tempo e influências que vão de artistas como Monet e Chaplin a Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Jacques Tati. Tudo num esquema de dupla página em que um lado segue o avô do título e o outro o vizinho com quem ele se cruza todos os dias, o Dr. Sebastião, com reuniões e pizzas comidas a correr ou aulas de pilates e piqueniques feitos na relva com os amigos, o neto e todo o tempo do mundo. E se a história é muito mais afectiva do que as anteriores, mantendo à mesma as referências vintage e do burlesco, as próprias ilustrações, feitas por camadas de cores e sempre à volta do vermelho, verde e branco, conseguem uma carga emocional enorme mesmo quando só mostram um prato de tarte pousado num tampo com dois pares de pernas a tomarem um lanche a aparecerem debaixo da mesa, como na ilustração que acabei por comprar no lançamento do livro e que tenho na parede da cozinha.

Parabéns Catarina.

o meu avo

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Sofia Gomes

Quando acabou, começou. E o que podia ter sido só uma relação terminada deu lugar a um blogue, um curso, várias exposições. Até há pouco tempo eu não sabia, sabia apenas que gostava muito das fotografias da Sofia Gomes, que sem ter ido à Madeira já vi Porto Santo e que vendo Lisboa todos os dias encontro sempre uma cidade diferente na lente dela. Mas depois perdi a timidez e desafiei-a para um lanche e para partilhar aqui cinco fotografias inéditas. Foi aí que soube que a Sofia, que tem apenas mais um ano que eu, começou a fotografar porque o namorado de oito anos lhe ofereceu uma Lomo pouco antes de acabarem, e os disparos da LC-A, tal como o blogue entretanto criado, serviram como “uma forma de comunicar com ele e,  mais do que isso, de expressar sentimentos que de outra maneira não conseguia”. Mais tarde veio o curso de fotografia tirado à noite na Ar.Co, as novas máquinas analógicas, o scanner de negativos e a primeira exposição, “NowHere”. Aqui e agora a Sofia está a viver na Madeira e a trabalhar no restauro das pinturas da Sé, mesmo no centro histórico do Funchal, onde fez a sua exposição de fotos tiradas com o iPhone, “a woman is no island”. Sigo-a no instagram avidamente, adorei a série dedicada ao Verão feita para o Mashnotes, e estou para lá de contente por poder partilhar aqui estas imagens captadas com a máquina analógica na chegada à ilha e que apanham:

o Paúl do Mar

2

O Seixal

4

O Mercado dos Lavradores, “que à sexta e ao sábado está cheio de locais e de turistas”

8

11

E esta paisagem “algures na costa norte da Madeira”, com muito vegetação e “mais selvagem”.

12

Tão selvagem como o próprio momento do disparo. “A fotografia é meio terapêutica”, diz Sofia, “mas não é muito pensada. Vou olhando.”

Olhemos para ela então que vale a pena.

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