Ilustração, Livros

Um speicher* de Berlim

AlphabeticsVi este volume e velozmente verifiquei a vivacidade vocabular, vasculhando voluntariamente a carteira à procura do visa enquanto a vista voava pelas vinhetas vintage. Porque sim, sempre gostei de aliterações, e este livro editado pela Little Gestalten é precisamente isso: “an aesthetically awesome alliterated alphabet anthology” onde cada letra do alfabeto corresponde a um pequeno texto em que quase todas as palavras começam pela mesma letra. Do astronauta altruísta Atticus que está num abismo anti-gravidade, à zombie Zooey que vê Zeppelins aos zig-zags em Zurique, Alphabetics é um exercício estimulante em torno da linguagem que mostra que ainda há coisas para inventar nos livros de abecedários para miúdos. Os textos têm graça porque dão azo a cenários surreais como um esquimó excêntrico que embarca numa expedição ao Evereste em cima de um elefante, e as ilustrações de Dawid Ryski dão um toque retro a tudo que se vê logo na capa – onde está representado o colossal Cornelius com a sua câmara clássica Contaflex – mas continua por cada uma das 26 letras.

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No fim, ainda há um glossário que explica o que são Zeppelins e uma série de outras palavras.

*esta explico eu e é mesmo souvenir, em alemão.

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Ilustração, Razões para perder a cabeça

Sardinhada

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Finalmente a banhos, mas a tentar agitar as águas paradas aqui do blog, partilho um cardume que a Fábrica Rafael Bordallo Pinheiro lançou em colaboração com as Festas de Lisboa para partir, ou melhor, pintar a loiça toda. A notícia é antiga – saiu em Junho, quando foram colocadas à venda as 21 sardinhas ilustradas para fazer companhia à cinza-prateada original –, mas não há maneira de resolver o meu dilema, por mais tempo que passe: compro a sardinha-farol, para guiar a primeira, que já tenho à porta de casa, ou a sardinha-piropo, sempre animada com o seu “eh carapau!”?

Sim, são estes os dilemas das férias. Já nem me lembrava.

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Ilustração, Livros

A revolta dos lápis de cera

LápisAinda há pouco tempo peguei numa caixa usada de lápis de cera da Faber Castell e comentei com a minha mãe que acho que são mesmo um objecto bonito: cada um com a sua cor e o papel à volta para ir rasgando à medida que se desenha ou pinta, espaço para escrever o nome do dono e a identificação: black, white, red, dark blue, peach.

Nem de propósito, uns dias depois, li este livro da colecção Orfeu Mini, O dia em que os lápis desistiram (The day the crayons quit), em que as personagens principais são 12 lápis de cera. Uma ideia maravilhosa de Drew Daywalt, que trocou a realização de curtas-metragens de terror por este livro de estreia onde se juntou às ilustrações de Oliver Jeffers, que aqui teve todas as desculpas e mais alguma para rabiscar o livro de uma ponta à outra.

Como mostra a capa reivindicativa, tudo começa porque os lápis não estão contentes: o azul está tão pequeno que já não se consegue pôr de pé, sempre a ser usado para pintar oceanos e céus. O bege está triste porque lhe chamam castanho-claro ou amarelo-torrado e porque fica sempre em segundo plano, atrás do “Sr. Lápis Castanho”, enquanto o amarelo e o laranja já nem se falam, cada um convencido de que é o mais indicado para colorir o sol. Todos resolvem escrever ao seu dono, e é assim que o Duarte chega à escola e descobre 12 cartas com todas as queixas dos seus lápis de cor, do verde ao preto. Um livro onde o humor está presente em cada página e que é, até agora, um dos meus livros infantis preferidos do ano.

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Ilustração, Livros

Lá Fora

Uma coisa é olhar para o céu e tentar ver coelhos, flores ou frigideiras nas nuvens. Outra coisa é olhar para as manchas brancas lá no alto e saber identificar cirrostratus e altocumulus. Com o novo livro da Planeta Tangerina, as duas coisas são possíveis: a ideia é aprender a observar a natureza e saber tratar tudo pelos nomes.

La ForaLá Fora é o maior volume alguma vez lançado pela premiada editora para crianças – mais de 350 páginas – e é, como diz o pós-título, um “guia para descobrir a natureza” de capa dura e lombada gorda. As ilustrações são de Bernardo P. Carvalho, um dos co-fundadores da Planeta Tangerina, e os textos são de duas biólogas: Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário, colegas de faculdade e fãs da editora há muito.

A ideia foi de Maria, 38 anos. “Tenho um entusiasmo enorme por ir lá para fora ver animais e tudo o que se passa na natureza, por isso é que fui para Biologia. E acho interessante como as crianças partilham desse entusiasmo e adoram ir ao Jardim Zoológico, por exemplo, mas quando adultos deixam de ligar a isso.” Foi para combater o movimento inverso – “o facto de as pessoas actualmente estarem tão voltadas para casa e os miúdos para os computadores, as televisões e as consolas”, acrescenta Inês – que nasceu Lá Fora. “Numa época em que há tanta concorrência de informação, o livro é uma tentativa de partilhar o nosso entusiasmo, mostrando ao mesmo tempo a enorme diversidade que temos.” “Portugal é um país pequeno mas onde acaba por haver muita variedade”, explica Inês. “Temos desde logo uma costa muito grande com uma grande diversidade de areias e rochedos, mas também temos zonas mais montanhosas e diferentes tipos de floresta.”

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Dividido por grupos, dos “bichos e bicharocos” onde se incluem as minhocas, as lesmas, as formigas, as borboletas e os caracóis, às flores e aos mamíferos, onde se fala por exemplo de baleias e morcegos, Lá Fora está repleto de exemplos ligados ao país, tendo o cuidado de apontar em que região se podem observar as diferentes espécies retratadas. E nem os meios urbanos são esquecidos. “Mesmo que a nossa casa fique no meio da maior cidade do mundo, no meio de grandes avenidas cheias de carros, há sempre natureza lá fora. Há sempre céu e estrelas (mesmo que escondidos pelos arranha-céus), nuvens e chuva, árvores e flores, e animais, muitos animais”, lê-se logo na página 17. “Mesmo no centro de Lisboa há imensos passarinhos e animais interessantes”, reforça Maria. Basta pensar nos pombos, nas gaivotas e pardais que todos os dias se cruzam connosco.

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Encontrar animais, folhas, estrelas e toda a fauna e flora à nossa volta não foi difícil, o que se revelou mais desafiante foi mesmo chegar ao discurso utilizado. “A regra era ter uma linguagem clara e simples mas ao mesmo tempo rigorosa”, diz Inês, ao que Maria junta, em tom de brincadeira: “Sempre tive um percurso científico, estou em Cambridge a trabalhar numa organização não-governamental [a BirdLife International], e como tenho que escrever relatórios complexos e ainda por cima noutra língua, pensei que ia ser fácil escrever para miúdos, mas na verdade foi mais difícil. É preciso saber muito bem do que se está a falar para conseguir partilhá-lo de forma simples.”

Para ajudar na tarefa, as autoras, em conjunto com a editora, juntaram vários miúdos para perceber que perguntas tinham eles na cabeça. “Se as minhocas não têm pernas, como é que conseguem andar?”, “como é que uma árvore consegue crescer tanto sem cair para o lado?” e “porque é que o mar é azul?” são apenas algumas das questões encontradas. O livro, “indicado sobretudo a partir dos oito anos mas sem limite de idade”, responde a isto e a muito mais: explica, por exemplo, porque é que as galinhas não voam, se são aves, e de que são feitas as escamas (neste caso, a resposta é queratina, “que também serve para fazer os nossos cabelos, pelos e unhas ou as penas e bicos das aves”). “Como o objectivo era que as pessoas fossem para a rua, para além das perguntas quisemos dar também sugestões de actividades”, diz Inês. É assim que o guia sugere passeios para procurar conchas de caracóis e pegadas ou ensina a construir um baloiço numa árvore, a montar uma caixa-ninho ou a fazer uma bailarina com uma papoila.

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Tudo isto seria já à partida interessante, mas sem dúvida não seria tão bonito sem as ilustrações de Bernardo Carvalho que atravessam as 368 páginas e se espalham até pela contracapa, com uma surpresa original: num livro onde se fala tanto de natureza, não existe uma pinga de verde. “Quando começámos a receber os textos percebi que não valia a pena fazer coisas muito artísticas para elementos que era preciso reconhecer”, diz o ilustrador. “Mas ao mesmo tempo também queríamos que o livro tivesse uma vertente contemplativa, que ninguém sentisse que as coisas tivessem de estar tão ligadas à realidade.” A solução foi juntar as duas ideias. A parte realista foi assegurada por um caderno central, noutro papel, onde se reproduzem borboletas, anfíbios, árvores ou aves como num manual de Botânica ou Biologia (e aí há verde, sim). E a parte mais artística surgiu no próprio corpo principal, na forma de aguarelas a preto e branco onde foram incluídas duas personagens desenhadas apenas com contorno, a caneta preta. Já os animais, as folhas, rochas, patas e bicos foram sempre preenchidos em dois tons: azul e cor de laranja. Porque para ver as cores verdadeiras, escusado será dizer, o melhor mesmo é ir lá para fora.

Artigo publicado na edição nº 342 (16 de Abril de 2014) da Time Out Lisboa. Ilustrações de Bernardo Carvalho.

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Ilustração, Livros

Planeta Tangerina

Hoje a Planeta Tangerina anunciou no blog que o próximo livro, Lá Fora, deve estar a chegar ao armazém, mesmo a tempo da Primavera. Por causa disso, lembrei-me do dia em que fui até Carcavelos, qual sonda enviada a Marte, para fazer uma reportagem sobre a editora para a Time Out Miúdos. Foi por volta de Maio, fazia um sol maravilhoso e o Bernardo Carvalho estava no sótão a trabalhar precisamente nesse livro, um calhamaço escrito por duas biólogas cheio de aves, répteis, árvores e actividades para os miúdos fazerem, num cenário que parecia ele próprio uma ilustração, com janelinhas inclinadas no tecto e desenhos por todo o lado. “Convém pôr as pintas certas nas cobras venenosas”, disse-me ele enquanto fazia um decalque realista. “Só para não ter os miúdos a dizerem: ‘olha mãe, com esta não há problema’.”

Os bastidores da editora e o bom humor de todos  foram para mim uma imagem do que são os livros, e por isso recupero aqui hoje parte do artigo publicado na Time Out Miúdos 2013, com seis livros emblemáticos escolhidos pelos próprios editores:

planeta tangerina

Se fosse preciso fazer corresponder casas com histórias, do género “casa de doces é a de Hansel e Gretel”, “casa de palha é a do porco mais preguiçoso dos três porquinhos”, não seria difícil perceber qual é a casa da Planeta Tangerina. Vêem-se os livros, lêem-se as histórias, olha-se para as ilustrações e só se podia imaginar algo como isto: uma vivenda cheia de sol com salas cheias de bonecos pendurados nas paredes, um sótão onde se desenha noite e dia e um quintal onde se almoça no Verão e na Primavera, haja alguém com paciência para arrancar as ervas daninhas.

As instalações da editora que foi reconhecida na última Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha com o prémio de melhor editora europeia para a infância estão muito longe de um tradicional escritório, tal como os livros estão muito longe de simples histórias encadernadas e se têm vindo a destacar, desde 2006, como álbuns onde tudo é pensado ao pormenor, dos textos às imagens que os acompanham, passando pelas capas e pelo tipo de papel. Ao todo são já 36, incluindo sucessos como Pê de Pai, Coração de Mãe e Quando eu Nasci, ou projectos arrojados como Praia-Mar e Trocoscópio, sem qualquer texto e apenas ilustração.

O Planeta nasceu com poucos habitantes – Isabel Minhós Martins, Bernardo Carvalho, Madalena Matoso e João Gomes de Abreu, todos colegas no curso de Design da Faculdade de Belas-Artes, três deles a partilharem carteiras desde os tempos do liceu na Parede – mas hoje já tem mais três conterrâneos: Yara Kono, ilustradora e também sócia, Cristina Lopes, que trata da distribuição, e Carolina Cordeiro, designer. Porque a Tangerina cresceu, e de um simples ateliê de design e ilustração que resolveu experimentar começar a fazer os seus próprios livros passou para uma editora com várias obras no Plano Nacional de Leitura e direitos vendidos até na Coreia e no Japão. E se a Tangerina cresceu, a estrutura teve de crescer com ela. “Nas editoras tradicionais as tarefas estão mais partidas”, diz Isabel Minhós Martins, que assina a maior parte dos textos, “mas nós aqui gostamos de tratar o livro do princípio ao fim”. Por isso se juntam todos na “sala de reuniões que é também de almoços no Inverno” e atiram ideias para cima da mesa de tampo preto. “Como somos os nossos próprios patrões temos de estar sempre a pedalar e a inventar coisas”, diz Isabel. “O mais difícil é não fazer livros repetidos”, acrescenta o ilustrador Bernardo Carvalho. “Sobretudo porque parece que agora há mais pessoas a tratar de assuntos mundanos como nós. Nunca fomos da fantasia e das fadas ou dos porcos a voar.”

A Planeta Tangerina fala de quintais, de estradas, da praia, de andar na rua ou dos objectos do dia-a-dia. “Temos vidas normais com que os nossos leitores se identificam”, diz Bernardo Carvalho. Sejam esses leitores os miúdos para quem os livros são escritos ou os pais que os compram, o mérito é todo e indiscutivelmente da editora. Fazer do mundano algo tão original e ainda receber um prémio internacional de criatividade por isso, só mesmo de um planeta fora deste universo, nessa galáxia distante que é Alto dos Lombos, em Carcavelos.

Seis livros emblemáticos:

quandoeunasciUm dos primeiros livros da Planeta Tangerina, Quando eu Nasci  “fala das descobertas que fazemos quando nascemos mas tem como particularidade o facto de não ser nada cor-de-rosa ou azul clarinho como normalmente se associa aos bebés”, diz Isabel Minhós Martins. “Se somarmos as cores todas, 80% do livro é preto”, acrescenta Bernardo Carvalho.

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asduasestradasAs Duas Estradas
 faz parte da trilogia de histórias paralelas e conta a história de duas famílias a fazerem uma viagem. Uma segue pela autoestrada e a outra pela estrada nacional. Uma está pintada de vermelho e a outra de azul. Ambas correm lado a lado na mesma página, é só virar o livro de pernas para o ar para conseguir ler as duas.

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amantaA Manta
fala de uma avó que conta histórias aos netos através de uma manta de retalhos. Cada retalho é quase uma vinheta de banda desenhada. É o primeiro livro de Yara Kono na Planeta Tangerina e um dos vários onde a editora deixa adivinhar uma certa nostalgia pelo antigamente.

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quintaisTodo feito com caneta de feltro,
O Livro dos Quintais é para ir descobrindo em cada leitura. Começa com um gato preto que desaparece, Gatuno, e conta a história dos vários vizinhos de um bairro. Cada dupla página tem uma pista para descobrir o felino e corresponde a um mês do ano.

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praiamarSó com ilustrações de Bernardo Carvalho,
Praia-Mar é um livro onde a praia é transformada em personagem e um acontecimento dá origem a tudo: a subida da maré. “É um livro contemplativo”, diz Isabel, “e sai do formato que costumamos fazer porque é muito mais alto. Os livreiros queixam-se até que não cabe nas prateleiras.”

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paraondevamosPara Madalena Matoso, que assina as ilustrações de Para Onde Vamos Quando Desaparecemos?, este foi o livro mais difícil de fazer da editora, não só porque o tema é complicado mas porque “junta uma abordagem leve e filosófica e era preciso que a ilustração não caísse nem para um lado nem para outro”. Nele se dá exemplos de coisas que desaparecem, desde as meias às poças que vão para o céu.

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