Coração

Berlim

Não estive em Berlim anteontem, quando se assinalaram os 25 anos da queda do muro e se lançaram ao ar os oito mil balões luminosos, não vim fazer um post comemorativo do primeiro aniversário em que me juntei ao wordpress (até porque nem repararia, recebi um aviso) e não tenho fotografias boas para mostrar. Mas estive em Berlim e apetece-me contar ao mundo, mesmo com um mês de atraso, que aprendi a gostar do Outono no Tiergarten, com os seus lagos e esquilos de cauda em vison; vi a mesma estátua que o Wim Wenders (ah, o Wim Wenders) filmou no Wings of Desire com os meus próprios olhos; aprendi a orientar-me na cidade através da Television Tower e da sua antena inspirada no Sputnik; vi como se vivia na Alemanha Oriental – e o que eram jeans de Leste – no DDR Museum; perdi-me na loja-café da Gestalten, com vista para o Zoo; enchi o iPhone de fotografias de arte urbana no Haus Schwarzenberg (e um pouco por todo o lado); comi muito e comi bem por pouco dinheiro; toquei no que resta do muro debaixo de um céu que resolveu chover tudo de uma vez; quis abrir um hotel como o Michelberger, com o seu néon de boas vindas, as caixas de correio às cores e a comida vegan; e desejei ter mais 15 centímetros de altura, como as alemãs de gabardine e Air Force 1 que vi por todo o lado.

Não cresci em metros mas alarguei os horizontes, e por isso obrigada, Berlim.

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Coração

Para o Carlos

Mesmo que não estivesse escrito nos livros, eu sabia que a cabeceira da mesa era para o chefe de família. Não aprendi na minha casa mas aprendi na tua, e sei que a minha memória não me engana quando salta estes últimos meses e te lembra sentado no topo, ou em pé e mais alto do que todos os outros.

28 de Março de 1952 – 19 de Outubro de 2014

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Coração

Amor anti-rugas

Ontem o Observador publicou uma história sobre “quando o amor envelhece (mas não desaparece)” e eu lá fui lê-la à procura de entender o segredo que faz com que duas pessoas fiquem juntas uma vida toda, e sejam felizes, um segredo para mim mais profundo do que o número de estrelas que existem no universo. O artigo mostrava três casos de casais juntos há mais de 50 anos, e se às tantas era evidente que o amor, com as rugas e o passar do tempo, se pode transformar antes em cumplicidade, gostei de ficar com a sensação de que uma das receitas para encontrar a felicidade amorosa é ser muito prático e muito pouco piegas. Como o casal que se conheceu e apaixonou por causa das marchas populares em Alfama, Natália e Eduardo Correia, 77 e 78 anos, citados no artigo. Ele ia vê-la dançar, “a miúda da saia ao xadrez”, 16 anos e pernas bonitas e ágeis, longe das que tem hoje, feridas da vida enquanto operária, e rapidamente se fez seu par. Ainda adolescentes, falavam pouco mas dançavam muito. E o pedido de namoro, recordado hoje por Eduardo, foi mais ou menos assim: “Ia ver a marcha, vinha ao baile e dançava sempre com ela. Chegou a um ponto em que perguntei ‘Como é?’.”

Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, esse “como é?” dura até hoje, e à primeira aliança já se juntaram outras duas, pelos 25 e 50 anos de casados (ocasião registada na fotografia em cima da cómoda, a provar que as rugas também são para emoldurar). Com a tal simplicidade que me tocou, Natália olha para trás sem romantismos, prova viva de que o romantismo pode muito bem ser meter-se com o marido e ir ver os jogos do Benfica à Luz. “Não vou dizer que durante 50 anos não houve altos e baixos, em todos os casais há”, diz Natália no artigo, rematando: “Mas nada que não se pudesse superar. Senão… senão ele tinha ido à viola!”.

Para ler aqui.

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Coração

Amor é… (#5)

“Todas as manhãs a minha avó colhia flores de jasmim que punha no soutien para cheirar bem. Quando ela se despia, caíam flores do seu peito. Era mágico.
– Avó, como fazes para ter os seios tão redondos na tua idade?
– Meto-os todos os dias dez minutos numa taça de água gelada.”

Persepolis, Marjane Satrapi

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