Entrevistas

Matilde Campilho

Até há umas três semanas eu nunca tinha ouvido o nome Matilde Campilho. Não sabia que a Matilde andava entre o Rio de Janeiro e Lisboa a encher cadernos de versos e observações. Mas depois aterrou-me na secretária um livro chamado Jóquei, e os poemas lá dentro atropelaram-me os dias como um cavalo de corrida. Joquei
Porque a Matilde escreve com urgência, com um ritmo que encontrou o seu lugar numa língua transatlântica que está algures no meio do oceano, e escreve uma poesia, nessa mistura de Portugal e Brasil, que tanto serve para falar de amor como da torcida do Flamengo. Nestes poemas, reunidos em livro na colecção de poesia coordenada por Pedro Mexia, o Inverno que quer “encher a cabeça de domingos” é arrasado em seis linhas e acredita-se profundamente que “esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo”. Nunca tinha encontrado assim uma maturidade dos 30 com uma energia tão adolescente, mas se calhar é como a Matilde escreve e os poetas são os novos roqueiros.

Encontrámos-nos para conversar sobre o livro num café no Chiado, e aqui fica a versão completa da entrevista que saiu na Time Out Lisboa de 28 de Maio.

Jóquei é apresentado por Pedro Mexia como um álbum de Verão e de facto é como se o Inverno aqui não tivesse grandes hipóteses. Já eras uma pessoa do sol, ou o Rio de Janeiro teve alguma coisa a ver com isto?
Já era, totalmente. Aliás, essa foi uma das razões porque fiquei tão encantada com o Rio. Sempre fui sol. Inverno para mim, quase fingia que não existia. Passei sempre metade dos meus anos em negação, até que apareceu o Rio de Janeiro.

Como é que apareceu?
Foi quase por acaso. Eu andava sempre para trás e para a frente, nunca parava muito em Portugal mas também nunca ficava muito tempo nos sítios para onde ia. E quando apareceu um projecto no Rio, eu fui, e uma coisa que era para ser 15 dias ficou. Na pele.

Dirias que o Verão do livro é também metafórico? Porque há aqui um certo maravilhamento: a raça humana brilha, as palmeiras brilham, há muita alegria.
Tem muito a ver com o espanto. Quase a defender-me do Inverno, a defender-me de uma certa tristeza que há no país, procurei sempre o lado claro. É engraçado porque foi muito a poesia que me ensinou a procurar o lado claro. As histórias, o cinema, tudo aquilo… Tudo é uma possibilidade de brilho. E eu procurei isso, no Brasil, no que estava a ler, e tentei trazê-lo não só para o livro mas para a vida.

Porque é que dizes que foi a poesia que te ensinou? Ou melhor, porque é que achas que mais naturalmente a tua forma de dizer as coisas é a poesia?
Foi por um conjunto de coisas. Comecei a ler muita poesia, que não era uma coisa muito normal aos 20 e tal anos. No Rio tinha muitos amigos que escreviam e comecei a olhar para a poesia também com um olhar diferente, sem distanciamento. Aquilo estava ali, e a partir dali era uma ponte para os outros também não estarem tão distantes, mesmo os que já estavam mortos. E eu já escrevia, escrevia sempre, e aquela forma, que afinal não é uma forma nem uma fórmula, porque fui percebendo ao longo do caminho que há mil dentro daquela, pareceu-me estranhamente a mais livre. Apesar de parecer que tem um esquema, a poesia fazia-me muito mais sentido, principalmente pelo ritmo. A minha escrita tinha muito ritmo e encaixava na poesia.

É curioso dizeres que é a forma mais livre porque no livro tanto temos poemas que têm três versos como são escritos em prosa, em avalanche.
O livro foi escrito ao longo de vários anos e por isso corresponde a alturas e a leituras diferentes. É inevitável haver alguma contaminação com o que se lê, e se eu estava a ler os poetas beat, por exemplo, naturalmente vinham-me textos mais compridos, enquanto se estivesse a ler haikus, acontecia o inverso. Também tinha a ver com o que via lá fora. Às vezes era uma enxurrada de coisas, às vezes era mais calmo.

Outra forma de liberdade é o que pode estar dentro de um poema, e tu brincas logo com isso no início. Aqui tanto temos os grandes temas, como um Black & Decker ou o ácido desoxirribonucleico. Como é que tu encaras um poema, de forma a que ele possa abrigar essas coisas todas?
Com o respeito devido mas sem cerimónia. Um poema pode muito bem ser sobre um Black & Decker ou uma Coca-Cola porque a vida tem isso. Apesar de haver respeito, não havia distanciamento entre os poemas e eu no processo de trabalho. Então porque não aparecerem os gestos do dia-a-dia, os corredores do supermercado, os mergulhos na praia, misturados com tudo aquilo que eu estava a aprender de mais metafísico? No Brasil há muito isso, e eu lembro-me de ficar surpreendida no começo: então mas ele está a fazer um poema a um suco de abacaxi? Isso pode?

Sobretudo porque há uma certa seriedade quando se fala em poesia.
A palavra poesia é aquela coisa que ouvimos na escola desde pequenos como algo solene. [Faz uma voz grave]: agora vamos estudar Os Poetas. Que longe! Então nós, que temos uma tradição de grandes poetas, muitos deles muito clássicos. Eu conseguia-me aproximar mais depressa d’Os Maias, parecia que me diziam mais respeito. E de repente, lendo outras coisas, fora da escola, tu percebes que tudo aquilo se pode, porque a poesia é tudo isso lá fora. Quando as pessoas me perguntam: mas tu és o quê? Poeta, poetisa, escritora?

O que é que respondes?
Poeta.

E o que é que te provoca essa resposta?
Era uma coisa que no princípio… Teve muito a ver com o Brasil, lá está. Tenho muitos amigos que são músicos ou poetas, e aquilo era muito natural. Em conversa, estamos no boteco, alguém pergunta “o que é que fazes?”, alguém diz “eu sou poeta”, e a conversa anda. Aqui já era um bocadinho diferente. Se me perguntam “o que é que fazes?” e eu digo “eu sou poeta”, perguntam de novo: “sim, está bem, mas…” Hoje em dia digo tranquila, mas foi uma coisa que demorei a mastigar porque se calhar é mais fácil dar uma profissão que possa vir num cartão. É aquela coisa de ligar a marcar uma consulta e perguntarem: “Nome? Telefone? Profissão?”. Eu respiro sempre antes. Depois digo, já digo sem medo, mas respiro. Sempre à espera da reacção.

Há reacção?
Às vezes há uma gargalhadinha. Mas isso é bom, rir é bom, a ideia também é essa.

Brincar com a poesia?
Sim, sempre com respeito, como eu dizia, como nas boas relações.

Há um poema, logo o primeiro, que tem “cara de Whitman”.
Há muitos nomes de outros poetas lá no meio e é sempre uma coisa meio de “oi mestre”. Mas é isso, é “oi mestre” e não [faz uma voz séria]: “boa tarde mestre, como está?”. É com respeito e com amor.

Geralmente o que é que está na origem de um poema?
Eu tinha um amigo que dizia que eu escrevia tanto o tempo todo que era impossível não sair pelo menos um poema. Como aqueles rolos de 36 fotografias em que pelo menos uma tinha que sair boa. Porque eu sempre andei, desde que me lembro, com um caderninho no bolso e a reparar. E esta mistura de rua – porque eu ando muito na rua, vou a casa para dormir –, com muita leitura, era quase inevitável que não desse alguma coisa escrita.

Quando olhas para esses cadernos, onde escreves de forma imediata, encontras poemas prontos a publicar ou há muito um trabalho de limar as coisas em casa?
Há. Os cadernos são diários de viagem, depois aquilo passa por um garimpo: olhar, ver, riscar. Muitos deles são só observação, o que não deixam de ser alguns dos poemas.

Era para tentar perceber o teu processo de escrita. Porque quem lê…
Acha que é imediato.

Não sei se imediato, mas rápido. Urgente.
Muitas vezes os poemas são escritos muito em cima do acontecimento, porque como estou sempre lá fora e passo muito tempo nos cafés, a coisa acontece aí. Das 50 coisas que estão no caderno, há um poema que nasce ali, naquele ônibus, com a letra tremida. Por isso sim, muitos deles são aqui e agora, e eu acho que isso se vê. Embora o aqui e agora seja traiçoeiro. Porque está bem, eu escrevi aqui e agora mas há quanto tempo ele estava a acontecer, com as leituras que estava a fazer e as influências que recebo sem perceber?

Dirias que o português do Rio ajudou à alegria do livro? Agora disseste ônibus em vez de autocarro, que é uma palavra mais leve.
Pelo menos é mais curta (risos).

Mas ajudou?
Sim… É a mesma língua, mas realmente aquele sotaque deles é mais solar. Tem mais ginga, é mais húmido. É mais tudo o que a cidade é. Nós somos um bocadinho mais sérios, mas não deixamos de ter palavras mais bonitas, que parecem ter sido pensadas com mais tempo. Ambas têm coisas incríveis. Agora se ajudou à alegria? Ajudou, como tudo o resto que o Rio de Janeiro tem.

Pegando numa palavra, porque é que o livro se chama Jóquei? Porque é que não se chama por exemplo astronauta, que às tantas escreves que é “a palavra mais incrível de todas”?
Eu andei muito tempo com o título para trás e para a frente, porque o livro fala de várias coisas, e eu podia ter puxado uma delas mas isso ia reduzi-lo um bocadinho. Se eu lhe chamasse Verão, as pessoas iam esperar isso. E uma vez, estava a falar sobre cavalos e houve um amigo que me disse: “todo o poema é um poema sobre um cavalo”. E aquela frase, que na altura nem me fez muito sentido, ficou aqui atrás da orelha. Até que um dia apareceu-me a palavra jóquei e eu gostei imediatamente dela, mesmo que não quisesse dizer nada. Primeiro que tudo, achei bonito apaixonar-me pela palavra, antes de qualquer coisa. É como apaixonares-te por uma pessoa só porque ela é bonita e depois logo se vê. E fui andando naquilo e comecei a pensar no próprio do jóquei. A ideia que eu tenho das corridas de cavalos, que conheço pouco, é que eles em princípio quando se metem naquilo querem muito ganhar, chegar ao fim da corrida e ser o melhor, se calhar não prestando assim tanta atenção ao cavalo. Mas com o passar do tempo eles vão-se apaixonando é pelo cavalo, e chega uma altura em que ganhar ou perder já não importa, já não é uma corrida, não há corrida nenhuma. Sou eu e o cavalo, e vamos embora. E aquilo tudo fez sentido. Quando ele diz “todo o poema é um poema sobre um cavalo”… Um poema é um cavalo. E isto não é corrida nenhuma, não é para ser melhor do que aquele que eu li, isto é para ir andando, no ritmo dos poemas, atrás dos poemas, e se eles quiserem chegar à meta chegam, se não quiserem não chegam. Achei que aquilo fazia sentido para mim e então disse: olá Jóquei.

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