Entrevistas

Andréa Del Fuego

FuegoO nome veio de um batom, mas eu só soube depois de uma longa conversa. Há 15 dias voltei a falar com a escritora brasileira Andréa Del Fuego por causa de um novo romance, As Miniaturas, e lembrei-me desta entrevista publicada na Time Out nº 238, (18 de Abril de 2012), pouco depois da atribuição do Prémio José Saramago a Os Malaquias. O livro começa com uma tempestade e um raio que cai em cima de uma casa da Serra Morena, deixando três crianças órfãs, a nossa conversa começou com uma dedicatória, e foi assim:

Normalmente um escritor dedica o seu romance à família ou a alguém amigo. A Andréa dedica-o “aos personagens desta história”? Porquê?
No fim foi um jeito indirecto de fazer a mesma coisa, porque os personagens são da minha família.

São mesmo?
Sim, os três protagonistas têm os nomes do meu avô Nico e dos meus tios-avós, e o livro parte de uma história real: um raio que caiu em casa, matou os meus bisavós e deixou as três crianças órfãs. Eu soube essa história ainda pequena e ela é tão fabulosa que demorei a acreditar que fosse verdade. E sempre fiquei com essa imagem do raio, do encontro de forças entre céu e terra, a ponto de fulminar os corpos e provocar um incêndio interno. Ainda por cima essa história nunca era bem contada em família, o meu avô emocionava-se muito. Eu sabia que escreveria sobre ela em algum momento. Só imaginava que teria 50, 60 anos.

Porquê?
Porque seria mais madura, na medida em que quando se vai envelhecendo se vai subindo uma montanha e vendo as coisas do alto, com um olhar um pouco maior da vida. Achei que teria de esperar tal momento para dar conta disso, mas sou bastante ansiosa e acabei por começar a escrever muito antes, com vinte e poucos anos. O livro acabou por demorar sete anos a ficar pronto, acho que até por essa insegurança. E era o primeiro romance. Sim, eu já tinha escrito contos, mas o romance é outra entrega. Mesmo que você não esteja escrevendo, o romance está com você. Além de que nada te obriga a escrever. Você vai lá e senta e toma uma decisão quase infantil de escrever uma história, a história de sua família. É uma coisa quase egocêntrica, do género “vou escrever sobre as minhas férias” (risos). Eu tive até de aprender uma nova organização para ter Os Malaquias em mãos, porque tinha a sensação de que se perdesse um milímetro de controlo ele me escaparia e podia cair num diário de adolescente ou ficar meloso demais. Os Malaquias me ensinou sobre escrever romances. A escrita me ensinou a escrever, é quase isso.

Algo que o júri do Prémio Saramago sublinhou foi precisamente a originalidade da escrita, ao mesmo tempo tradicional e inovadora. Escrever assim é algo que lhe é natural ou trabalha muito cada parágrafo, cada frase?
Existiu uma primeira explosão, uma grande vontade de escrever esta história. Os primeiros capítulos eu li e reli achando aquilo tudo belíssimo, quase em êxtase (risos). Depois, com a releitura, fui achando tudo muito amador, muito pequeno, quase descontrolado. Acho que o verdadeiro trabalho foi o momento em que me distanciei do livro e entrei nele para cortar.

Mas ao escrever já tinha essa preocupação de juntar tradição e inovação?
Não era nada propositado. A determinado momento percebi é que tinha muito realismo mágico no livro, e que tinha de cortar. Quando a cena era mágica, como por exemplo o momento em que a personagem some dentro do bule de café, a linguagem não podia ser rebuscadíssima, tinha de ser seca. E quando eu me deixava ser mais poética, era quando descrevia uma cena muito comum, como a menina na cozinha comendo sopa. Porque se eu aliasse o conteúdo e a linguagem, era como se colocasse chantilly em cima de frango assado, e por cima uma pizza de atum. Eram demasiadas coisas.

Havia sempre uma balança.
Sim, era um trabalho bastante racional. Eu tinha uma ideia inicial da literatura como uma liberdade incrível do autor. Mas o que percebi é que a liberdade começa com a primeira palavra e vai ficando mais pequena, porque você vai escolhendo caminhos, e esses caminhos vão ficando menores. No meu caso, eu percebi que a ideia de escrever livremente me levava para a total falta de literatura. Há autores que se libertam num fluxo de consciência, e o próprio fluxo é belo, mas no meu caso o controlo precisa de estar sempre presente. Para além da personagem que desaparece no bule, há outra que é um fantasma, e é quase como se a Serra Morena fosse um lugar encantado.

Como é que uma paulista na casa dos 30 escreve um livro assim?
São Paulo é uma cidade que tem brasileiros de vários estados, e esses estados são quase como países porque cada um tem um jeito muito próprio. Do meu círculo de amigos são poucos os realmente paulistanos. Eles são do Recife, ou do Rio Grande do Sul, e todos têm alguém que vem de uma zona rural ou de uma cidade pequena. No meu caso, as férias de infância foram sempre passadas numa cidade pequena de Minas Gerais que sempre achei que era um lugar fora do tempo. Lembro-me que quando voltava a São Paulo era um balde de água fria, parecia que estava noutro país. O jeito de falar mudava, o jeito de andar mudava, o tempo era outro. Muitos dos meus colegas autores falam da violência urbana, mas a zona rural não tem apenas poesia e zonas bucólicas, ela é cheia de violência, violência da própria natureza. Hoje, morando em São Paulo com 36 anos, falar de uma zona rural e sair do hiper-realismo é realmente contra-corrente. E foi um risco enorme, tanto que não se deu muita bola para Os Malaquias aqui. O Prémio Saramago foi inacreditável porque me deu uma segurança imensa para seguir a corrente que eu quisesse. Até mesmo a contra-corrente.

A Andréa começou na publicidade. Quando é que a escrita apareceu?
Eu me aproximei da escrita antes mesmo da leitura. Os meus pais não são intelectuais, não havia muitos livros, mas como eu queria me comunicar com os meus familiares no interior, escrevia cartas. E nessas cartas já inventava algumas notícias e fazia uma certa ficção. Depois comecei a escrever cartas que nem sequer saíam de casa, para a minha mãe. Ela nunca ia à reunião da escola e eu queria muito que ela fosse. Então um dia resolvi escrever uma carta para ela. Escrevi no quarto e entreguei na cozinha. E ela foi na reunião, e caiu uma bomba sobre mim. A carta convenceu.

Era o poder da escrita.
Ser escritora nessa altura nem me ocorria, mas fui escrevendo uns contos e guardando, até que por volta de 2003 resolvi tentar publicá-los. Eram contos eróticos, alguns muito ingénuos, outros razoáveis, mas foi interessante publicá-los porque isso fortaleceu uma decisão para escrever. É como se você materializasse um lugar no mundo com o livro.

E de onde é que vem este nome, Andréa Del Fuego?
Nessa época em que escrevia contos eróticos, mandei um para um editor de uma revista. Ele não quis publicá-lo mas me ofereceu uma coluna para responder a dúvidas sexuais dos leitores. Eu não sou psicóloga nem sexóloga, por isso era uma brincadeira, era como se fosse a personagem do conto a responder. Surgiu então a ideia de ir buscar um pseudónimo, já que Andréa Fátima dos Santos não caberia e era pouco picante. E aí a minha sogra é que sugeriu Andréa Del Fuego, um nome inspirado numa vidente brasileira dos anos 50 chamada Luz del Fuego, que por sua vez tirou esse nome de um batom argentino que a Carmen Miranda usava. Nessa altura eu nunca diria que iria escrever livros para crianças, um romance, e o nome foi ficando. Um nome que vem de um batom! 

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