Entrevistas

David Machado e a felicidade

indice medio de felicidadeNunca tinha contado anedotas numa entrevista até ir conversar com o David Machado sobre o seu terceiro romance, Índice Médio de Felicidade. No livro, o escritor pega no teste que dá nome ao livro, um questionário de uma só pergunta – “numa escala de zero a dez, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?” – e coloca um narrador a quem tudo corre mal a contar a um amigo que está na prisão a história de porque é que continua a acreditar no futuro, apesar de tudo.

Encontrámo-nos à beira-rio, num dia de sol daqueles onde é difícil estar de mal com o mundo, e este foi o resultado dessa conversa, publicada na Time Out Lisboa número 310 e onde se falou muito de optimismo e, claro, de felicidade.

Experimentaste responder ao índice de felicidade quando estavas a escrever o livro?
Não, pessoalmente acho que não faz sentido. Eu identifico-me muito com este narrador – acho que é a primeira vez que isso acontece num livro meu – e ele está sempre muito céptico em relação a fazer as contas. Acaba por fazê-las mas acho que ele não acredita muito naquilo e eu também não acredito que seja possível contabilizar a felicidade. É uma coisa que nós sentimos e que não dá para estar a dissecar. Se tivéssemos de o fazer era tão complexo e indeterminável que era uma segunda vida. Nunca me passou pela cabeça fazer aquelas contas nem sequer lançar um valor para o ar.

E como é que te passou pela cabeça escrever um livro a partir disto?
Eu queria falar sobre felicidade. Porque a felicidade sempre foi uma coisa importante para mim. E é uma coisa de que se fala muito mas que é muito subestimada. Se perguntarem a alguém num questionário o que é que essa pessoa quer fazer daí a dez anos, quase ninguém diz “eu quero ser feliz”, são sempre coisas muito mais pragmáticas. Mas na minha opinião ser feliz é aquilo que nós ambicionamos todos. E então eu queria falar sobre isso, e andei à procura de várias coisas na internet e encontrei um site com o Índice Médio de Felicidade e as estatísticas agregadas de quase todos os países do mundo. No início era para ser uma coisa pequena, uma obsessão do Xavier [amigo do narrador], mas depois cresceu e acabou por dar título ao romance.

É curioso que o protagonista responda a esse índice com um valor alto, porque ele está numa fase em que tudo lhe corre mal. Mesmo sem a mulher e os filhos, desempregado, considera-se um homem feliz e acredita no futuro. Nada a ver com Xavier, que vive deprimido e fechado em casa porque sim. Como é que isto se explica? Que haja pessoas mais capazes de encontrar a felicidade?
Eu não sei muito bem explicar, sei que sempre me senti uma pessoa bastante feliz, mesmo nos momentos mais infelizes. No meu caso, e é algo que mais uma vez partilho com a personagem, acho que é por causa do meu optimismo. Ou seja, por causa da minha relação com o futuro. Eu acho que isto pode sempre ser melhor, pelo menos existe sempre essa possibilidade. E também acho que há pessoas que conseguem relativizar melhor os momentos menos bons e não perder o foco das coisas que são realmente importantes.

Mas interessava-te discutir a forma como as pessoas reagem, e daí teres uma personagem tão positiva e outra tão negativa?
Sim, isso é o que me interessa sempre quando escrevo: reflectir sobre alguns temas e não exactamente encontrar respostas. Neste momento eu não tenho muitas mais respostas do que tinha antes de escrever o livro, acho é que sei muito mais coisas sobre a felicidade agora.

Como por exemplo?
Essa relação com o futuro. Nunca tinha pensado verdadeiramente nisso mas a esperança e a ideia de um futuro mais ou menos concreta são de facto muito importantes para a nossa felicidade do presente.

Engraçado dizeres que és tão feliz porque em teoria um escritor seria mais um Xavier do que um Daniel, não? Naquele sentido em que se diz que os escritores estão constantemente a mergulhar nas questões mais complexas e problemáticas da existência.
(risos) Apesar de tudo acho que sou uma pessoa bastante introspectiva, às vezes um pouco isolado e com alguma propensão à melancolia. Mas acho que nada disso impede a felicidade ou o optimismo, essas coisas convivem. Para responder àquele índice com um número elevado não é preciso ter uma vida espectacular ou ser muito rico, porque a nossa vida, como a de qualquer pessoa no mundo, tem coisas más. Eu acho que o que é importante é sabermos viver com essas coisas más, como neste momento de crise que estamos a viver e que o livro também reflecte. Se não temos dinheiro para ir jantar fora jantamos em casa e convidamos os amigos, ou não convidamos os amigos e fazemos a festa na mesma, ou não fazemos a festa e não há problema porque fazemos para o ano.

Isso tem muito a ver com a maneira de ser.
Mas eu também acho que se aprende, acho que é possível. O ser humano adapta-se tão bem a todas as situações… Aliás, depois de escrever o livro até fiquei a pensar que na escola devíamos ter uma disciplina de felicidade, para aprendermos a ser felizes.

Isto tudo fez-me lembrar uma anedota que está numa capa da Penguin sobre um psiquiatra que é pai de gémeos. Um deles é um pessimista incorrigível e o outro um optimista e por isso ele resolve fazer uma experiência: na véspera de Natal enche o quarto do pessimista de brinquedos e o quarto do optimista de estrume de cavalo. Na manhã seguinte vai ver as reacções e o pessimista está muito desconfiado a tentar perceber porque é que recebeu tanta coisa, enquanto o optimista está a mexer no estrume todo contente. O pai pergunta o que é que se passa e porque é que ele está tão feliz, e ele responde: “Ó pai, com tanta merda de cavalo, eu já percebi: de certeza que há aqui um pónei.”
(risos)

Ou seja, ou se é optimista ou não se é.
Ok, eu acho que é difícil ensinar o optimismo a alguém, mas a focarmo-nos nas coisas que nos fazem mais felizes, acho que isso é absolutamente possível.

Pela forma como o livro está construído, o Daniel imagina as respostas do amigo. No fundo isto é também a forma como um escritor imagina as respostas do leitor?
É interessante mas nunca tinha pensado nisso. Isto é algo que eu faço e que acho que a maior parte das pessoas faz: em momentos em que não consegue comunicar com alguém, imagina-se numa conversa com aquela pessoa. E isso ajuda a estruturar o pensamento. Nesse ponto, sim, há uma relação com o trabalho da escrita. Eu podia ter tido todos estes pensamentos para escrever este livro sem escrevê-lo, mas não seriam exactamente os mesmos pensamentos porque as palavras ajudam a estruturar os argumentos.

O que é que é importante para ti quando escreves?
Para mim é sempre a história. Tenho de acreditar que aquela história está bem construída e só depois começo a pensar no tom do texto e na linguagem que vou usar.

Voltando ao início, não te vou pedir um número mas lembrei-me de um projecto que é o Felicidário, onde um ilustrador tem de completar a frase “a felicidade é…” e fazer uma ilustração à volta disso. Como é que tu completarias essa frase?
Vou responder de outra maneira, até porque não seria capaz de o fazer só com uma frase. É uma coisa que ando para fazer há imenso tempo, que é ter um diário da felicidade. Quando andei a pesquisar sobre o assunto descobri que há muita gente que tem e é um diário onde se escreve o momento mais feliz de cada dia. Ainda não o comecei mas, desde que vi isso, há dias em que me vou deitar e me pergunto o que é que escreveria nesse dia. É muito interessante porque a minha primeira reacção foi pensar que não tenho assim momentos tão extraordinários para ter sempre alguma coisa a registar, mas o que acontece é que na maior parte das vezes é precisamente o contrário. Quando começamos a olhar para os nossos dias, encontramos tantas coisas tão fixes que muitas vezes o difícil é escolher. E isso é interessante porque eu próprio, que ando mais desperto para isto por causa do livro, não me tinha apercebido que os meus dias estão cheios de momentos muito bons, e acho que a maior parte das pessoas não está consciente disso.

Então a felicidade é começar um diário da felicidade.
Por exemplo. (risos) Não, eu acho que a felicidade passa por coisas simples, e somos nós que temos de manter as coisas simples na nossa cabeça. A vida é simples. O mundo onde nós vivemos, sim, é complicado, mas viver uma vida, se tivermos as coisas bem organizadas, é simples. Acredito mesmo nisso.

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