Livros

Nada a Dizer

Há tanta coisa certa no primeiro livro que li de Elvira Vigna que me apetece deixar escrito que a única coisa errada é o título, Nada a Dizer. Porque o que acontece é precisamente o contrário – a escritora não só tem muito a dizer, como o que diz é dito com honestidade, uma visão sobre o amor nos dias de hoje no ponto em que ele é lento e antigo quando tudo à volta corre e é novidade. A narradora não tem nome, mas o tom é confessional; o assunto é trágico (uma traição que destrói uma relação de 30 anos) mas ela ri – “rá rá” – como só os brasileiros conseguem. No outro dia uma amiga dizia para quem a queria ouvir que somos finitos e frágeis e que nós, mulheres, bem nos podemos preparar para sermos trocadas por outras mais novas daqui a uns anos. Não sou tão catastrofista e quero acreditar que mesmo com as rugas e as maminhas para baixo vai haver qualquer coisa interessante, vai ser bom conhecer profundamente outra pessoa e vai dar para continuar a rir – “rá rá” –, mas por causa do que ela disse partilho aqui o que escrevi sobre este romance e o que a própria autora me contou sobre ele, no início de 2013.

Nada a DizerA mulher traída tenta ligar para o telemóvel do homem que a traiu e percebe que ele o deixou em casa, desligado. Imagina então se ele o tivesse levado para se encontrar com a amante no quarto do hotel e o telefone tocasse: “Seria assim: Musiquinha de celular em impromptu na harmonia dos Ahn, Ai, Tesuda. Paulo no celular: ‘Oi, querida.’ O pau de Paulo entre as pernas: ‘Tchau, querida.’ Outra querida, evidentemente.” (p.71)

A cena faz parte de Nada a Dizer, o livro com que a carioca Elvira Vigna chega às livrarias portuguesas, e mostra em meia dúzia de linhas o que é este romance, originalmente publicado em 2010: o relato de uma mulher traída a tentar entender como é que duas pessoas que estão juntas há mais de 30 anos podem esquecer-se uma da outra, e a falar do fim do amor com uma ironia que chega a ser desconcertante.

“Escolhi a mulher traída para narradora por este ser um ponto de vista raramente considerado nas histórias românticas”, diz a autora a partir do Rio de Janeiro. “Assim retiro a impressão romântica que uma traição possa ter. Não acredito em amores aos pouquinhos. Casos de amor significam que o amor anterior acabou.” Não é a primeira vez que Elvira Vigna escreve sobre o tema, e para o saber basta olhar para o título do seu romance mais recente, O que deu para Fazer em Matéria de História de Amor. “Acho que a dificuldade em se obter satisfação em relacionamentos afectivos é um tema contemporâneo, sejam tais relacionamentos do tipo que for: monogâmicos e longos ou, pelo contrário, rápidos e diversificados.”

Paulo e a mulher que escreve na primeira pessoa, a mulher traída de quem nunca chegamos a saber o nome, são do tipo monogâmico e longo, apesar de terem crescido com a revolução sexual dos anos 60 e a viver em repúblicas ou apartamentos com mais dez ou 12 pessoas. Ele já tem mais de 60 anos mas ainda gosta de fumar a sua “maconha”, ambos são tradutores e acabam de se mudar para São Paulo quando ela descobre que ele tem um caso com N., uma colega 20 anos mais nova.

Com a entrada em jogo dessa mulher, tudo é passado em revista, e Nada a Dizer torna-se uma espécie de viagem para entender as falhas do outro, ou quem se é sozinho, ao mesmo tempo que se ergue como um testemunho muito forte do amor na meia-idade e no mundo de hoje, em que os emails podem ser encriptados e as traições combinadas por sms. “Havia a carga de toda uma vida passada juntos. A carga de um conhecimento profundo um do outro a impedir o frescor de uma risada inesperada, de uma aceitação sem comentários. Ou julgamentos.” (p.58)

E como na cena do telemóvel, no meio da traição, da descoberta de que não se conhece ninguém e de que todas as respostas são temporárias, o dramatismo dá lugar a um humor fino, infinitamente mais eficaz a mostrar a dor desta mulher que se expõe sem artifícios.

“A ironia costuma estar presente em meus textos, sem que eu me esforce para isso”, conclui Elvira Vigna. “É uma coisa minha. Não sou uma pessoa dramática.”

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