Livros

Deixem Passar o Homem Invisível

Quase durante um ano, passei todos os dias em frente à Igreja de São Sebastião da Pedreira, a ver sempre as mesmas coisas até o Rui Cardoso Martins publicar o Deixem Passar o Homem Invisível e abrir um buraco na rua onde os meus ténis passavam apressadamente, virando do avesso o centro da terra. É assim, com as costuras da cidade à vista que começa o livro, editado em 2009 e que levei para reler nestas férias (o que é o melhor elogio que lhe posso fazer).

O buraco abre-se num dia de temporal em que chove tudo de uma vez em Lisboa e a força das águas revela uma entrada para um boqueirão antigo da cidade subterrânea onde os bombeiros encontram a bengala de um cego e um sapato de criança. O cego é António, advogado e crente no humor negro – “um hábito que lhe viera das crueldades da vida” –, que é engolido pela terra e arrastado pelas águas com um escuteiro de oito anos. “Teve a certeza de que ia morrer quando um gelo lhe inundou a espinha e a testa, na confluência superior do nariz, o sítio onde dói nas imperiais bem tiradas, e o crânio se enche de cerveja, olha não penses mais nisso e aprecia esta frescura meu rapaz, até que bateu com a cabeça e desmaiou.” (p.59)

O que é mais impressionante no livro, para além do jeito único que o Rui Cardoso Martins tem de juntar morte e imperiais, o duro e o quotidiano, o sentimental e o cruel, é como a escuridão a dobrar do protagonista deixa tanto lugar ao que é bom e sobrevive. Apesar da catástrofe e do perigo de morte, Deixem Passar o Homem Invisível é um livro cheio de vida, onde se tenta sobreviver nos subterrâneos tanto como se tenta sobreviver às desgraças que acontecem à luz do dia, todos os dias, a cada um. Há uma personagem inesquecível chamada Serip (Pires ao contrário) que é um ilusionista que tem tanto jeito para descobrir os objectos escondidos na plateia dos seus espectáculos como para atrair desastres, mas a verdadeira magia é continuar a acreditar que se vai sair do escuro, seja com as pernas, o amor ou o poder das histórias. Sobretudo com um livro assim.

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