Entrevistas

Lídia Jorge e o 25 de Abril

No romance passaram 30 anos e não 40 como os que se comemoram amanhã. Ainda assim é um olhar para algo longínquo o que se faz n’ Os Memoráveis, o mais recente romance de Lídia Jorge e sobre o qual falámos numa tarde de início de Março que mais parecia de Verão. No livro, uma jornalista procura os heróis do 25 de Abril para fazer um documentário para a CBS e tem como base quatro perguntas fundamentais. Depois de ouvir a escritora dizer coisas lindas sobre o que é uma revolução que tive a oportunidade de partilhar na edição nº 337 da Time Out – “numa revolução a sociedade fica jovem, fica com 18 anos, mesmo as pessoas que vão morrer e são muito velhas” – partilho aqui as quatro perguntas do documentário respondidas por Lídia Jorge, que por falta de espaço acabaram por ter de ficar de fora do artigo:

Onde estava no 25 de Abril?
Estava em Moçambique, onde dava aulas, e foi um militar que me veio dizer. Ainda estavam todos muito receosos que fosse uma intentona como as Caldas, um golpe falhado. À medida que as notícias foram chegando percebemos que não. Foi um dia muito feliz.

O que sentiu na altura?
Uma grande felicidade. Eu fiz pouco para que acontecesse a revolução. Não fiz nada, apenas desejei. Andei nas lutas estudantis, a correr à frente da polícia. E em reuniões que aconteciam entre a Faculdade de Letras e a de Direito. Era uma sensação extraordinária de desafiarmos o que estava a acontecer. Não fiz nada, mas desejei tanto.

Que balanço faz agora, passados 30 anos?
Faço um balanço muito positivo. O país deu um salto tão grande que hoje podemos dizer que há netos de analfabetos que são doutores em Cambridge e na universidade de Harvard. Foi um salto brutal. Do ponto de vista da cultura, da ciência, dos meios, da capacidade crítica, da escolarização, tudo isso foi um salto brutal. Há um outro lado que infelizmente foi um falhanço: a questão do desenvolvimento económico, e a justiça, que continua a ser digna do século XIX. A injustiça portuguesa é a grande instituição que veio do Salazar e se mantém até hoje, com os acentos em famílias de interesses que devoraram o nosso desenvolvimento. O espírito crítico que adquirimos ainda não foi suficiente para inverter o nosso pensamento indolente, de espera, de medo, de segredo. E estas duas coisas casadas – uma injustiça feita em proveito de alguns e uma passividade – foram fatais. Foi isso que nos conduziu até aqui. E continua, basta abrir os jornais do dia. É um balanço de meia tigela, portanto.

Qual a melhor imagem que guarda de tudo o que aconteceu?
São tantas… talvez seja o relato que eu ouvi de uma rapariga que se despiu uns dias a seguir ao 25 de Abril, no Rossio. Foi um escândalo, mas ao mesmo tempo completamente compreensível. Eu lembro-me que nós tínhamos inveja dessa coragem, porque também tínhamos vontade de nos despirmos, de tal forma nos sentíamos livres. Que os militares me desculpem, e os cravos me desculpem, mas essa imagem dessa rapariga como ma descreveram, eu acho que ela é a imagem da essência da liberdade: é despir a roupa e enfrentar o olhar de todos, mostrarmos como nascemos, aqui estamos.

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