Ilustração, Livros

Um speicher* de Berlim

AlphabeticsVi este volume e velozmente verifiquei a vivacidade vocabular, vasculhando voluntariamente a carteira à procura do visa enquanto a vista voava pelas vinhetas vintage. Porque sim, sempre gostei de aliterações, e este livro editado pela Little Gestalten é precisamente isso: “an aesthetically awesome alliterated alphabet anthology” onde cada letra do alfabeto corresponde a um pequeno texto em que quase todas as palavras começam pela mesma letra. Do astronauta altruísta Atticus que está num abismo anti-gravidade, à zombie Zooey que vê Zeppelins aos zig-zags em Zurique, Alphabetics é um exercício estimulante em torno da linguagem que mostra que ainda há coisas para inventar nos livros de abecedários para miúdos. Os textos têm graça porque dão azo a cenários surreais como um esquimó excêntrico que embarca numa expedição ao Evereste em cima de um elefante, e as ilustrações de Dawid Ryski dão um toque retro a tudo que se vê logo na capa – onde está representado o colossal Cornelius com a sua câmara clássica Contaflex – mas continua por cada uma das 26 letras.

w-baleiab-ursos-marinheira

No fim, ainda há um glossário que explica o que são Zeppelins e uma série de outras palavras.

*esta explico eu e é mesmo souvenir, em alemão.

Anúncios
Standard
Livros

Festa no Covil

Não é uma história de crianças mas é narrada por uma criança, o filho de um narcotraficante mexicano que trata o pai pelo nome próprio, é educado para acreditar que pertence à melhor quadrilha de machos das redondezas e conhece mais mortos do que amigos. O seu nome é Tochtli e foi criado pelo escritor Juan Pablo Villalobos em Festa no Covil, um livro breve, tão breve como as considerações do rapazinho que conta tudo, mas tão cheio que mostra um país inteiro, no seu lado mais negro. Por causa de romances como Uma Vida à Sua Frente, de Romain Gary (de que também hei-de falar aqui), já tinha percebido que há um enorme potencial nos narradores crianças, mas foi Villalobos, numa conversa que tivemos no ano passado, que o resumiu nesta frase: “O grande valor das vozes infantis na literatura é a mistura de inocência e crueldade: conseguir falar das coisas mais terríveis com leveza, como se não estivesse a acontecer nada e fosse normal.”

Recupero aqui o artigo que serviu de pretexto para essa conversa, publicado na Time Out Lisboa nº 298.

Festa no CovilTochtli gosta de ler o dicionário antes de dormir, conhece todos os filmes de samurais e detalhes da Revolução Francesa (sobretudo a parte da guilhotina), anda sempre de chapéu na cabeça e tem aulas em casa, mas também aprende algumas coisas com o pai. “Uma das coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não ficam cadáveres com um tiro. Às vezes precisam de três tiros, ou até de 14. Tudo depende do sítio para onde disparas. Se dás dois tiros na cabeça de uma pessoa, é morte certa. Mas até podes disparar mil vezes para o cabelo dela que não acontece nada, embora deva ser divertido de ver.” (p.19)

Tochtli é o narrador de Festa no Covil, o primeiro romance do mexicano Juan Pablo Villalobos (n. 1973) e uma daquelas personagens que vão directamente para a galeria de melhores vozes da literatura. É também o filho de um poderoso narcotraficante e os olhos através dos quais vemos a sociedade mexicana: violenta, corrupta, misógina, desigual e homofóbica, tudo palavras que o narrador não usa e tudo leituras que são deixadas para o leitor fazer, num livro breve onde os vazios são deixados de propósito para cada um “pôr o seu sistema de valores e preconceitos a trabalhar”, e onde não faltam apontamentos de humor.

continuar a ler

Standard
Ilustração, Livros

A revolta dos lápis de cera

LápisAinda há pouco tempo peguei numa caixa usada de lápis de cera da Faber Castell e comentei com a minha mãe que acho que são mesmo um objecto bonito: cada um com a sua cor e o papel à volta para ir rasgando à medida que se desenha ou pinta, espaço para escrever o nome do dono e a identificação: black, white, red, dark blue, peach.

Nem de propósito, uns dias depois, li este livro da colecção Orfeu Mini, O dia em que os lápis desistiram (The day the crayons quit), em que as personagens principais são 12 lápis de cera. Uma ideia maravilhosa de Drew Daywalt, que trocou a realização de curtas-metragens de terror por este livro de estreia onde se juntou às ilustrações de Oliver Jeffers, que aqui teve todas as desculpas e mais alguma para rabiscar o livro de uma ponta à outra.

Como mostra a capa reivindicativa, tudo começa porque os lápis não estão contentes: o azul está tão pequeno que já não se consegue pôr de pé, sempre a ser usado para pintar oceanos e céus. O bege está triste porque lhe chamam castanho-claro ou amarelo-torrado e porque fica sempre em segundo plano, atrás do “Sr. Lápis Castanho”, enquanto o amarelo e o laranja já nem se falam, cada um convencido de que é o mais indicado para colorir o sol. Todos resolvem escrever ao seu dono, e é assim que o Duarte chega à escola e descobre 12 cartas com todas as queixas dos seus lápis de cor, do verde ao preto. Um livro onde o humor está presente em cada página e que é, até agora, um dos meus livros infantis preferidos do ano.

lapispreto

Standard
Ilustração, Livros

Lá Fora

Uma coisa é olhar para o céu e tentar ver coelhos, flores ou frigideiras nas nuvens. Outra coisa é olhar para as manchas brancas lá no alto e saber identificar cirrostratus e altocumulus. Com o novo livro da Planeta Tangerina, as duas coisas são possíveis: a ideia é aprender a observar a natureza e saber tratar tudo pelos nomes.

La ForaLá Fora é o maior volume alguma vez lançado pela premiada editora para crianças – mais de 350 páginas – e é, como diz o pós-título, um “guia para descobrir a natureza” de capa dura e lombada gorda. As ilustrações são de Bernardo P. Carvalho, um dos co-fundadores da Planeta Tangerina, e os textos são de duas biólogas: Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário, colegas de faculdade e fãs da editora há muito.

A ideia foi de Maria, 38 anos. “Tenho um entusiasmo enorme por ir lá para fora ver animais e tudo o que se passa na natureza, por isso é que fui para Biologia. E acho interessante como as crianças partilham desse entusiasmo e adoram ir ao Jardim Zoológico, por exemplo, mas quando adultos deixam de ligar a isso.” Foi para combater o movimento inverso – “o facto de as pessoas actualmente estarem tão voltadas para casa e os miúdos para os computadores, as televisões e as consolas”, acrescenta Inês – que nasceu Lá Fora. “Numa época em que há tanta concorrência de informação, o livro é uma tentativa de partilhar o nosso entusiasmo, mostrando ao mesmo tempo a enorme diversidade que temos.” “Portugal é um país pequeno mas onde acaba por haver muita variedade”, explica Inês. “Temos desde logo uma costa muito grande com uma grande diversidade de areias e rochedos, mas também temos zonas mais montanhosas e diferentes tipos de floresta.”

flores

Dividido por grupos, dos “bichos e bicharocos” onde se incluem as minhocas, as lesmas, as formigas, as borboletas e os caracóis, às flores e aos mamíferos, onde se fala por exemplo de baleias e morcegos, Lá Fora está repleto de exemplos ligados ao país, tendo o cuidado de apontar em que região se podem observar as diferentes espécies retratadas. E nem os meios urbanos são esquecidos. “Mesmo que a nossa casa fique no meio da maior cidade do mundo, no meio de grandes avenidas cheias de carros, há sempre natureza lá fora. Há sempre céu e estrelas (mesmo que escondidos pelos arranha-céus), nuvens e chuva, árvores e flores, e animais, muitos animais”, lê-se logo na página 17. “Mesmo no centro de Lisboa há imensos passarinhos e animais interessantes”, reforça Maria. Basta pensar nos pombos, nas gaivotas e pardais que todos os dias se cruzam connosco.

La Fora-borboleta
Encontrar animais, folhas, estrelas e toda a fauna e flora à nossa volta não foi difícil, o que se revelou mais desafiante foi mesmo chegar ao discurso utilizado. “A regra era ter uma linguagem clara e simples mas ao mesmo tempo rigorosa”, diz Inês, ao que Maria junta, em tom de brincadeira: “Sempre tive um percurso científico, estou em Cambridge a trabalhar numa organização não-governamental [a BirdLife International], e como tenho que escrever relatórios complexos e ainda por cima noutra língua, pensei que ia ser fácil escrever para miúdos, mas na verdade foi mais difícil. É preciso saber muito bem do que se está a falar para conseguir partilhá-lo de forma simples.”

Para ajudar na tarefa, as autoras, em conjunto com a editora, juntaram vários miúdos para perceber que perguntas tinham eles na cabeça. “Se as minhocas não têm pernas, como é que conseguem andar?”, “como é que uma árvore consegue crescer tanto sem cair para o lado?” e “porque é que o mar é azul?” são apenas algumas das questões encontradas. O livro, “indicado sobretudo a partir dos oito anos mas sem limite de idade”, responde a isto e a muito mais: explica, por exemplo, porque é que as galinhas não voam, se são aves, e de que são feitas as escamas (neste caso, a resposta é queratina, “que também serve para fazer os nossos cabelos, pelos e unhas ou as penas e bicos das aves”). “Como o objectivo era que as pessoas fossem para a rua, para além das perguntas quisemos dar também sugestões de actividades”, diz Inês. É assim que o guia sugere passeios para procurar conchas de caracóis e pegadas ou ensina a construir um baloiço numa árvore, a montar uma caixa-ninho ou a fazer uma bailarina com uma papoila.

La Fora-camaleao

Tudo isto seria já à partida interessante, mas sem dúvida não seria tão bonito sem as ilustrações de Bernardo Carvalho que atravessam as 368 páginas e se espalham até pela contracapa, com uma surpresa original: num livro onde se fala tanto de natureza, não existe uma pinga de verde. “Quando começámos a receber os textos percebi que não valia a pena fazer coisas muito artísticas para elementos que era preciso reconhecer”, diz o ilustrador. “Mas ao mesmo tempo também queríamos que o livro tivesse uma vertente contemplativa, que ninguém sentisse que as coisas tivessem de estar tão ligadas à realidade.” A solução foi juntar as duas ideias. A parte realista foi assegurada por um caderno central, noutro papel, onde se reproduzem borboletas, anfíbios, árvores ou aves como num manual de Botânica ou Biologia (e aí há verde, sim). E a parte mais artística surgiu no próprio corpo principal, na forma de aguarelas a preto e branco onde foram incluídas duas personagens desenhadas apenas com contorno, a caneta preta. Já os animais, as folhas, rochas, patas e bicos foram sempre preenchidos em dois tons: azul e cor de laranja. Porque para ver as cores verdadeiras, escusado será dizer, o melhor mesmo é ir lá para fora.

Artigo publicado na edição nº 342 (16 de Abril de 2014) da Time Out Lisboa. Ilustrações de Bernardo Carvalho.

baloico

Standard
Livros

Deixem Passar o Homem Invisível

Quase durante um ano, passei todos os dias em frente à Igreja de São Sebastião da Pedreira, a ver sempre as mesmas coisas até o Rui Cardoso Martins publicar o Deixem Passar o Homem Invisível e abrir um buraco na rua onde os meus ténis passavam apressadamente, virando do avesso o centro da terra. É assim, com as costuras da cidade à vista que começa o livro, editado em 2009 e que levei para reler nestas férias (o que é o melhor elogio que lhe posso fazer).

O buraco abre-se num dia de temporal em que chove tudo de uma vez em Lisboa e a força das águas revela uma entrada para um boqueirão antigo da cidade subterrânea onde os bombeiros encontram a bengala de um cego e um sapato de criança. O cego é António, advogado e crente no humor negro – “um hábito que lhe viera das crueldades da vida” –, que é engolido pela terra e arrastado pelas águas com um escuteiro de oito anos. “Teve a certeza de que ia morrer quando um gelo lhe inundou a espinha e a testa, na confluência superior do nariz, o sítio onde dói nas imperiais bem tiradas, e o crânio se enche de cerveja, olha não penses mais nisso e aprecia esta frescura meu rapaz, até que bateu com a cabeça e desmaiou.” (p.59)

O que é mais impressionante no livro, para além do jeito único que o Rui Cardoso Martins tem de juntar morte e imperiais, o duro e o quotidiano, o sentimental e o cruel, é como a escuridão a dobrar do protagonista deixa tanto lugar ao que é bom e sobrevive. Apesar da catástrofe e do perigo de morte, Deixem Passar o Homem Invisível é um livro cheio de vida, onde se tenta sobreviver nos subterrâneos tanto como se tenta sobreviver às desgraças que acontecem à luz do dia, todos os dias, a cada um. Há uma personagem inesquecível chamada Serip (Pires ao contrário) que é um ilusionista que tem tanto jeito para descobrir os objectos escondidos na plateia dos seus espectáculos como para atrair desastres, mas a verdadeira magia é continuar a acreditar que se vai sair do escuro, seja com as pernas, o amor ou o poder das histórias. Sobretudo com um livro assim.

Standard
Livros

Nada a Dizer

Há tanta coisa certa no primeiro livro que li de Elvira Vigna que me apetece deixar escrito que a única coisa errada é o título, Nada a Dizer. Porque o que acontece é precisamente o contrário – a escritora não só tem muito a dizer, como o que diz é dito com honestidade, uma visão sobre o amor nos dias de hoje no ponto em que ele é lento e antigo quando tudo à volta corre e é novidade. A narradora não tem nome, mas o tom é confessional; o assunto é trágico (uma traição que destrói uma relação de 30 anos) mas ela ri – “rá rá” – como só os brasileiros conseguem. No outro dia uma amiga dizia para quem a queria ouvir que somos finitos e frágeis e que nós, mulheres, bem nos podemos preparar para sermos trocadas por outras mais novas daqui a uns anos. Não sou tão catastrofista e quero acreditar que mesmo com as rugas e as maminhas para baixo vai haver qualquer coisa interessante, vai ser bom conhecer profundamente outra pessoa e vai dar para continuar a rir – “rá rá” –, mas por causa do que ela disse partilho aqui o que escrevi sobre este romance e o que a própria autora me contou sobre ele, no início de 2013.

Nada a DizerA mulher traída tenta ligar para o telemóvel do homem que a traiu e percebe que ele o deixou em casa, desligado. Imagina então se ele o tivesse levado para se encontrar com a amante no quarto do hotel e o telefone tocasse: “Seria assim: Musiquinha de celular em impromptu na harmonia dos Ahn, Ai, Tesuda. Paulo no celular: ‘Oi, querida.’ O pau de Paulo entre as pernas: ‘Tchau, querida.’ Outra querida, evidentemente.” (p.71)

A cena faz parte de Nada a Dizer, o livro com que a carioca Elvira Vigna chega às livrarias portuguesas, e mostra em meia dúzia de linhas o que é este romance, originalmente publicado em 2010: o relato de uma mulher traída a tentar entender como é que duas pessoas que estão juntas há mais de 30 anos podem esquecer-se uma da outra, e a falar do fim do amor com uma ironia que chega a ser desconcertante.

continuar a ler

Standard
Livros

Tudo são histórias de amor

Quem me conhece sabe que ao lado da minha costela existencialista há outra petrarquista que compensa a falta de jeito para a poesia lírica com uma enorme vontade de ler ou escrever sobre o amor. Ia acrescentar “percebê-lo”, mas se calhar nem é isso, pois sempre achei que o amor não é para perceber e é isso que o torna tão interessante. Há duas semanas, li quase de um fôlego os 12 contos que compõem o novo livro da Dulce Maria Cardoso, Tudo São Histórias de Amor, e descobri com prazer que qualquer tom romântico que se pudesse adivinhar pelo título é esmagado por uma visão muito mais cruel e problemática do tema. Partilho por isso o texto que escrevi há uma semana na Time Out, com cinco estrelinhas à cabeça:

Cabeça Coração

Um cão leva animais mortos para a dona que vive isolada no último andar de um prédio e tem ossos velhos que já não lhe permitem sair, e isso é amor. Uma mãe tem de escolher qual dos dois filhos salva de morrer atropelado, e isso é amor. Um rapaz ganha uma mulher ao jogo, com um baralho de cartas, e isso é amor. Não é clássico, não é cor-de-rosa, não é sequer conjugal, mas é o amor que Dulce Maria Cardoso retrata no seu novo livro de contos, um amor violento, imperfeito e que dói, tema transversal do livro que se junta a outros como a maldade, a diferença, a solidão e a responsabilidade.

Tudo São Histórias de Amor segue-se ao grande romance O Retorno e reúne 12 narrativas que, quase sem excepção, conseguem introduzir um grau maior ou menor de perturbação no leitor, seja no óptimo conto de entrada, “Este azul que nos cerca”, onde a tragédia é iminente desde o momento em que uma mulher chega a uma ilha onde oito faroleiros vivem isolados, seja em “A mosca e o copo de vinho rosé”, onde um simples insecto e um final aberto conseguem deixar-nos a pensar sobre a – cada vez maior? – indiferença. Há contos que partem de casos reais, como o que lembra as vítimas da queda da ponte Hintze Ribeiro (“Não esquecerás”) ou o que parte da morte de Joana, aos oito anos, (“Desaparecida, ou a Justiça”), e há experiências formais como o conto que é escrito como um ataque de pânico. Os cenários são mais rurais do que urbanos, como se a própria natureza conspirasse para um isolamento de onde emergem os grandes temas humanos e o tal amor em todas as suas formas. Diz-se algures que “quase todas as vidas dariam maus livros por causa das verdades absurdas de que se fazem”, mas estas deram precisamente o contrário.

Standard