Livros

Festa no Covil

Não é uma história de crianças mas é narrada por uma criança, o filho de um narcotraficante mexicano que trata o pai pelo nome próprio, é educado para acreditar que pertence à melhor quadrilha de machos das redondezas e conhece mais mortos do que amigos. O seu nome é Tochtli e foi criado pelo escritor Juan Pablo Villalobos em Festa no Covil, um livro breve, tão breve como as considerações do rapazinho que conta tudo, mas tão cheio que mostra um país inteiro, no seu lado mais negro. Por causa de romances como Uma Vida à Sua Frente, de Romain Gary (de que também hei-de falar aqui), já tinha percebido que há um enorme potencial nos narradores crianças, mas foi Villalobos, numa conversa que tivemos no ano passado, que o resumiu nesta frase: “O grande valor das vozes infantis na literatura é a mistura de inocência e crueldade: conseguir falar das coisas mais terríveis com leveza, como se não estivesse a acontecer nada e fosse normal.”

Recupero aqui o artigo que serviu de pretexto para essa conversa, publicado na Time Out Lisboa nº 298.

Festa no CovilTochtli gosta de ler o dicionário antes de dormir, conhece todos os filmes de samurais e detalhes da Revolução Francesa (sobretudo a parte da guilhotina), anda sempre de chapéu na cabeça e tem aulas em casa, mas também aprende algumas coisas com o pai. “Uma das coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não ficam cadáveres com um tiro. Às vezes precisam de três tiros, ou até de 14. Tudo depende do sítio para onde disparas. Se dás dois tiros na cabeça de uma pessoa, é morte certa. Mas até podes disparar mil vezes para o cabelo dela que não acontece nada, embora deva ser divertido de ver.” (p.19)

Tochtli é o narrador de Festa no Covil, o primeiro romance do mexicano Juan Pablo Villalobos (n. 1973) e uma daquelas personagens que vão directamente para a galeria de melhores vozes da literatura. É também o filho de um poderoso narcotraficante e os olhos através dos quais vemos a sociedade mexicana: violenta, corrupta, misógina, desigual e homofóbica, tudo palavras que o narrador não usa e tudo leituras que são deixadas para o leitor fazer, num livro breve onde os vazios são deixados de propósito para cada um “pôr o seu sistema de valores e preconceitos a trabalhar”, e onde não faltam apontamentos de humor.

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Coração

Amor anti-rugas

Ontem o Observador publicou uma história sobre “quando o amor envelhece (mas não desaparece)” e eu lá fui lê-la à procura de entender o segredo que faz com que duas pessoas fiquem juntas uma vida toda, e sejam felizes, um segredo para mim mais profundo do que o número de estrelas que existem no universo. O artigo mostrava três casos de casais juntos há mais de 50 anos, e se às tantas era evidente que o amor, com as rugas e o passar do tempo, se pode transformar antes em cumplicidade, gostei de ficar com a sensação de que uma das receitas para encontrar a felicidade amorosa é ser muito prático e muito pouco piegas. Como o casal que se conheceu e apaixonou por causa das marchas populares em Alfama, Natália e Eduardo Correia, 77 e 78 anos, citados no artigo. Ele ia vê-la dançar, “a miúda da saia ao xadrez”, 16 anos e pernas bonitas e ágeis, longe das que tem hoje, feridas da vida enquanto operária, e rapidamente se fez seu par. Ainda adolescentes, falavam pouco mas dançavam muito. E o pedido de namoro, recordado hoje por Eduardo, foi mais ou menos assim: “Ia ver a marcha, vinha ao baile e dançava sempre com ela. Chegou a um ponto em que perguntei ‘Como é?’.”

Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, esse “como é?” dura até hoje, e à primeira aliança já se juntaram outras duas, pelos 25 e 50 anos de casados (ocasião registada na fotografia em cima da cómoda, a provar que as rugas também são para emoldurar). Com a tal simplicidade que me tocou, Natália olha para trás sem romantismos, prova viva de que o romantismo pode muito bem ser meter-se com o marido e ir ver os jogos do Benfica à Luz. “Não vou dizer que durante 50 anos não houve altos e baixos, em todos os casais há”, diz Natália no artigo, rematando: “Mas nada que não se pudesse superar. Senão… senão ele tinha ido à viola!”.

Para ler aqui.

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Razões para perder a cabeça

Slip on

Vou contar aqui um segredo: antes de ver como a palavra se escrevia, eu achava que slip on eram ténis tão confortáveis que era possível dormir (sleep) com eles. Ainda hoje acho graça pensar nisso, até porque o sentido não anda longe da verdade (ténis sem atacadores e tão maleáveis que o pé desliza lá para dentro sem esforço). Digo isto depois de uma adolescência onde os Vans de pano aos quadradinhos andaram quilómetros nos meus pés, na versão clássica a preto e branco mas também cor-de-rosa e castanha, com cerejas, pinguins (gostava tanto desses) ou flores. De há uns tempos para cá, e com uns quantos pares ainda no closet, perguntava-me como ia ser capaz de assumir os trintas e trocar os ténis com que era capaz de dormir por uns rígidos saltos altos. A resposta chegou no ano passado, e agora em força: não trocando. Ou melhor, deixando os pinguins de lado e optando por padrões mais clássicos ou materiais mais nobres. Graças à alta moda, que resolveu pôr os slip on a deslizar pelas passarelles e a rematar as principais colecções, tudo isto é possível. E se não sou capaz de dar 500€ por uns ténis como estes lindos Givenchy,

givenchy-rose

espero ansiosamente pela versão semelhante das grandes cadeias enquanto vou piscando o olho a estas versões mais adultas que a Vans lançou para o Outono:

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Coração

Amor é… (#5)

“Todas as manhãs a minha avó colhia flores de jasmim que punha no soutien para cheirar bem. Quando ela se despia, caíam flores do seu peito. Era mágico.
– Avó, como fazes para ter os seios tão redondos na tua idade?
– Meto-os todos os dias dez minutos numa taça de água gelada.”

Persepolis, Marjane Satrapi

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Ilustração, Razões para perder a cabeça

Sardinhada

sardinhaoriginal

sardinhafarol

sardinhacarapau

Finalmente a banhos, mas a tentar agitar as águas paradas aqui do blog, partilho um cardume que a Fábrica Rafael Bordallo Pinheiro lançou em colaboração com as Festas de Lisboa para partir, ou melhor, pintar a loiça toda. A notícia é antiga – saiu em Junho, quando foram colocadas à venda as 21 sardinhas ilustradas para fazer companhia à cinza-prateada original –, mas não há maneira de resolver o meu dilema, por mais tempo que passe: compro a sardinha-farol, para guiar a primeira, que já tenho à porta de casa, ou a sardinha-piropo, sempre animada com o seu “eh carapau!”?

Sim, são estes os dilemas das férias. Já nem me lembrava.

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Entrevistas

Andréa Del Fuego

FuegoO nome veio de um batom, mas eu só soube depois de uma longa conversa. Há 15 dias voltei a falar com a escritora brasileira Andréa Del Fuego por causa de um novo romance, As Miniaturas, e lembrei-me desta entrevista publicada na Time Out nº 238, (18 de Abril de 2012), pouco depois da atribuição do Prémio José Saramago a Os Malaquias. O livro começa com uma tempestade e um raio que cai em cima de uma casa da Serra Morena, deixando três crianças órfãs, a nossa conversa começou com uma dedicatória, e foi assim:

Normalmente um escritor dedica o seu romance à família ou a alguém amigo. A Andréa dedica-o “aos personagens desta história”? Porquê?
No fim foi um jeito indirecto de fazer a mesma coisa, porque os personagens são da minha família.

São mesmo?
Sim, os três protagonistas têm os nomes do meu avô Nico e dos meus tios-avós, e o livro parte de uma história real: um raio que caiu em casa, matou os meus bisavós e deixou as três crianças órfãs. Eu soube essa história ainda pequena e ela é tão fabulosa que demorei a acreditar que fosse verdade. E sempre fiquei com essa imagem do raio, do encontro de forças entre céu e terra, a ponto de fulminar os corpos e provocar um incêndio interno. Ainda por cima essa história nunca era bem contada em família, o meu avô emocionava-se muito. Eu sabia que escreveria sobre ela em algum momento. Só imaginava que teria 50, 60 anos.

Porquê?
Porque seria mais madura, na medida em que quando se vai envelhecendo se vai subindo uma montanha e vendo as coisas do alto, com um olhar um pouco maior da vida. Achei que teria de esperar tal momento para dar conta disso, mas sou bastante ansiosa e acabei por começar a escrever muito antes, com vinte e poucos anos. O livro acabou por demorar sete anos a ficar pronto, acho que até por essa insegurança. E era o primeiro romance. Sim, eu já tinha escrito contos, mas o romance é outra entrega. Mesmo que você não esteja escrevendo, o romance está com você. Além de que nada te obriga a escrever. Você vai lá e senta e toma uma decisão quase infantil de escrever uma história, a história de sua família. É uma coisa quase egocêntrica, do género “vou escrever sobre as minhas férias” (risos). Eu tive até de aprender uma nova organização para ter Os Malaquias em mãos, porque tinha a sensação de que se perdesse um milímetro de controlo ele me escaparia e podia cair num diário de adolescente ou ficar meloso demais. Os Malaquias me ensinou sobre escrever romances. A escrita me ensinou a escrever, é quase isso.

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Ilustração, Livros

A revolta dos lápis de cera

LápisAinda há pouco tempo peguei numa caixa usada de lápis de cera da Faber Castell e comentei com a minha mãe que acho que são mesmo um objecto bonito: cada um com a sua cor e o papel à volta para ir rasgando à medida que se desenha ou pinta, espaço para escrever o nome do dono e a identificação: black, white, red, dark blue, peach.

Nem de propósito, uns dias depois, li este livro da colecção Orfeu Mini, O dia em que os lápis desistiram (The day the crayons quit), em que as personagens principais são 12 lápis de cera. Uma ideia maravilhosa de Drew Daywalt, que trocou a realização de curtas-metragens de terror por este livro de estreia onde se juntou às ilustrações de Oliver Jeffers, que aqui teve todas as desculpas e mais alguma para rabiscar o livro de uma ponta à outra.

Como mostra a capa reivindicativa, tudo começa porque os lápis não estão contentes: o azul está tão pequeno que já não se consegue pôr de pé, sempre a ser usado para pintar oceanos e céus. O bege está triste porque lhe chamam castanho-claro ou amarelo-torrado e porque fica sempre em segundo plano, atrás do “Sr. Lápis Castanho”, enquanto o amarelo e o laranja já nem se falam, cada um convencido de que é o mais indicado para colorir o sol. Todos resolvem escrever ao seu dono, e é assim que o Duarte chega à escola e descobre 12 cartas com todas as queixas dos seus lápis de cor, do verde ao preto. Um livro onde o humor está presente em cada página e que é, até agora, um dos meus livros infantis preferidos do ano.

lapispreto

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