Coração

Para o Carlos

Mesmo que não estivesse escrito nos livros, eu sabia que a cabeceira da mesa era para o chefe de família. Não aprendi na minha casa mas aprendi na tua, e sei que a minha memória não me engana quando salta estes últimos meses e te lembra sentado no topo, ou em pé e mais alto do que todos os outros.

28 de Março de 1952 – 19 de Outubro de 2014

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Razões para perder a cabeça

Kit-Cat, Kit-Cat, Kit-Cat

kit-cat-clocks

Não é que eu precise de mais gatos agitados em casa, mas voltei de Berlim (viagem de que espero conseguir falar em breve) simplesmente encantada com estes relógios. Os olhos mexem-se de um lado para o outro e o rabo também segue o compasso dos ponteiros, num design retro – retro entretanto, porque eles são mesmo antigos – que não podia estar mais na moda. Eu encontrei-os na Friedrichstrasse em todas as cores, versão gato e também gata (em vez de um laço têm um colar de pérolas e pestanas compridas como as da Minnie) mas já vi que volta e meia também aparecem na Urban Outfitters, para quem quiser felinos empoleirados nas paredes.

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Livros

Festa no Covil

Não é uma história de crianças mas é narrada por uma criança, o filho de um narcotraficante mexicano que trata o pai pelo nome próprio, é educado para acreditar que pertence à melhor quadrilha de machos das redondezas e conhece mais mortos do que amigos. O seu nome é Tochtli e foi criado pelo escritor Juan Pablo Villalobos em Festa no Covil, um livro breve, tão breve como as considerações do rapazinho que conta tudo, mas tão cheio que mostra um país inteiro, no seu lado mais negro. Por causa de romances como Uma Vida à Sua Frente, de Romain Gary (de que também hei-de falar aqui), já tinha percebido que há um enorme potencial nos narradores crianças, mas foi Villalobos, numa conversa que tivemos no ano passado, que o resumiu nesta frase: “O grande valor das vozes infantis na literatura é a mistura de inocência e crueldade: conseguir falar das coisas mais terríveis com leveza, como se não estivesse a acontecer nada e fosse normal.”

Recupero aqui o artigo que serviu de pretexto para essa conversa, publicado na Time Out Lisboa nº 298.

Festa no CovilTochtli gosta de ler o dicionário antes de dormir, conhece todos os filmes de samurais e detalhes da Revolução Francesa (sobretudo a parte da guilhotina), anda sempre de chapéu na cabeça e tem aulas em casa, mas também aprende algumas coisas com o pai. “Uma das coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não ficam cadáveres com um tiro. Às vezes precisam de três tiros, ou até de 14. Tudo depende do sítio para onde disparas. Se dás dois tiros na cabeça de uma pessoa, é morte certa. Mas até podes disparar mil vezes para o cabelo dela que não acontece nada, embora deva ser divertido de ver.” (p.19)

Tochtli é o narrador de Festa no Covil, o primeiro romance do mexicano Juan Pablo Villalobos (n. 1973) e uma daquelas personagens que vão directamente para a galeria de melhores vozes da literatura. É também o filho de um poderoso narcotraficante e os olhos através dos quais vemos a sociedade mexicana: violenta, corrupta, misógina, desigual e homofóbica, tudo palavras que o narrador não usa e tudo leituras que são deixadas para o leitor fazer, num livro breve onde os vazios são deixados de propósito para cada um “pôr o seu sistema de valores e preconceitos a trabalhar”, e onde não faltam apontamentos de humor.

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Coração

Amor anti-rugas

Ontem o Observador publicou uma história sobre “quando o amor envelhece (mas não desaparece)” e eu lá fui lê-la à procura de entender o segredo que faz com que duas pessoas fiquem juntas uma vida toda, e sejam felizes, um segredo para mim mais profundo do que o número de estrelas que existem no universo. O artigo mostrava três casos de casais juntos há mais de 50 anos, e se às tantas era evidente que o amor, com as rugas e o passar do tempo, se pode transformar antes em cumplicidade, gostei de ficar com a sensação de que uma das receitas para encontrar a felicidade amorosa é ser muito prático e muito pouco piegas. Como o casal que se conheceu e apaixonou por causa das marchas populares em Alfama, Natália e Eduardo Correia, 77 e 78 anos, citados no artigo. Ele ia vê-la dançar, “a miúda da saia ao xadrez”, 16 anos e pernas bonitas e ágeis, longe das que tem hoje, feridas da vida enquanto operária, e rapidamente se fez seu par. Ainda adolescentes, falavam pouco mas dançavam muito. E o pedido de namoro, recordado hoje por Eduardo, foi mais ou menos assim: “Ia ver a marcha, vinha ao baile e dançava sempre com ela. Chegou a um ponto em que perguntei ‘Como é?’.”

Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, esse “como é?” dura até hoje, e à primeira aliança já se juntaram outras duas, pelos 25 e 50 anos de casados (ocasião registada na fotografia em cima da cómoda, a provar que as rugas também são para emoldurar). Com a tal simplicidade que me tocou, Natália olha para trás sem romantismos, prova viva de que o romantismo pode muito bem ser meter-se com o marido e ir ver os jogos do Benfica à Luz. “Não vou dizer que durante 50 anos não houve altos e baixos, em todos os casais há”, diz Natália no artigo, rematando: “Mas nada que não se pudesse superar. Senão… senão ele tinha ido à viola!”.

Para ler aqui.

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Razões para perder a cabeça

Slip on

Vou contar aqui um segredo: antes de ver como a palavra se escrevia, eu achava que slip on eram ténis tão confortáveis que era possível dormir (sleep) com eles. Ainda hoje acho graça pensar nisso, até porque o sentido não anda longe da verdade (ténis sem atacadores e tão maleáveis que o pé desliza lá para dentro sem esforço). Digo isto depois de uma adolescência onde os Vans de pano aos quadradinhos andaram quilómetros nos meus pés, na versão clássica a preto e branco mas também cor-de-rosa e castanha, com cerejas, pinguins (gostava tanto desses) ou flores. De há uns tempos para cá, e com uns quantos pares ainda no closet, perguntava-me como ia ser capaz de assumir os trintas e trocar os ténis com que era capaz de dormir por uns rígidos saltos altos. A resposta chegou no ano passado, e agora em força: não trocando. Ou melhor, deixando os pinguins de lado e optando por padrões mais clássicos ou materiais mais nobres. Graças à alta moda, que resolveu pôr os slip on a deslizar pelas passarelles e a rematar as principais colecções, tudo isto é possível. E se não sou capaz de dar 500€ por uns ténis como estes lindos Givenchy,

givenchy-rose

espero ansiosamente pela versão semelhante das grandes cadeias enquanto vou piscando o olho a estas versões mais adultas que a Vans lançou para o Outono:

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