Arte urbana

Arte pelos ares (parte I)

A demolição começou no dia 8 e agora já só restam destroços e um buraco. Mas antes de virem as gruas e os bulldozers, a Tour Paris 13 foi não só um prédio mas sim a maior exposição colectiva de arte urbana de sempre, 100 artistas espalhados por 36 apartamentos e nove andares à beira do Sena. Tive a sorte de acompanhar a comitiva portuguesa que tomou conta de um dos pisos graças a um convite irrecusável da curadora nacional, Lara Seixo Rodrigues, que me deixou ver tudo e até calçar as luvas para mandar umas borrifadelas, e a 29 de Setembro publiquei a reportagem respectiva na revista P2 do Público. Agora que os litros e litros de tinta ficaram reduzidos a pedrinhas e só restam as fotografias, recupero esse artigo escrito no presente e com fotos de Pedro Seixo Rodrigues/Wool, mais uma ou duas minhas. Vai em duas partes porque é gigantesco e assim pode ser que alguém para além da minha mãe tenha paciência de o (re)ler.

No início não era a parede. Eram banheiras partidas no chão, portas arrancadas dos gonzos, cozinhas com armários aos bocados, papéis de parede rasgados, sanitas derrubadas e marcas de quadros em divisões onde alguém fumava. Para dizer a verdade, não era só a parede porque era também o tecto, o chão, as janelas, tudo multiplicado por 36 apartamentos, cada um com quatro ou cinco assoalhadas, nove andares, duas caves, 4500 metros quadrados. Costuma dizer-se que o melhor que se pode dar a um street artist é uma fachada, mas isso era até Mehdi Ben Cheikh, da galeria Itinerrance, pegar num prédio à beira do Sena e o transformar na maior exposição colectiva de arte urbana de sempre, a Tour Paris 13.

Mês após mês, desde o início do ano, o dono da galeria parisiense entrou com artistas de todo o mundo nas divisões devolutas do número 5 da Rue Fulton, pediu a Gael Lefeuvre, da produção, para trazer a caixa com todas as chaves e empurrou as portas blindadas para ver o mesmo cenário: divisões sem nada mas com vestígios de gente, plantas nos vasos das varandas ainda a florir e tudo. Aos artistas, só dizia: “Escolham a assoalhada que quiserem, mas tenham a noção de que isto não é uma parede na rua. Tentem criar um ambiente próprio para quem vai entrar e ver a peça. Quero que o espectador mergulhe num universo, que sinta a obra por todo o lado e não a distância que normalmente se sente quando se olha para um quadro.”

Os artistas cumpriram e pintaram tudo, por dentro e por fora. Houve mesmo quem aproveitasse para fazer instalações impossíveis de fazer na rua, como o francês Sambre, que agarrou em dezenas de portas retiradas do prédio para fazer novas paredes no nono andar. Outros, como o vizinho Sean Hart, preferiram fazer o oposto e partir tudo, deixando escrito: “I divide my fears by multiplying the risks, adding bridges by subtracting walls”. Alguns fizeram explodir cores em pinceladas, como o australiano Jimmy C, que pintou o universo de Rimbaud num antigo quarto. Outros, como o inglês David Walker, preferiram usar só preto e branco e ter as cores sugadas para dentro de uma banheira negra. Todos podem ser vistos durante um mês, em visitas de 49 pessoas de cada vez, de entrada livre. Depois, as portas fecham-se e a torre, um prédio tristonho dos anos 1950 agora fluorescente graças ao traço do tunisino El Seed, começa a contagem decrescente para ser demolido.

david walker

Mehdi, que abriu a Galeria Itinerrance em 2004 e desde cedo se ligou à arte urbana, já sabia que ia ser assim. Há dois anos, começou um projecto com o Maire do 13 ème, o arrondissement onde fica a galeria, para fazer um museu a céu aberto que as pessoas pudessem percorrer a pé. “Queria que o bairro fosse conhecido por razões culturais e não pelas mesmas de sempre, que é ser um bairro com muitas habitações sociais. A arte urbana era perfeita porque é popular mas ao mesmo tempo cultural, chega a todos e é gratuita, para além de ser completamente contemporânea.” Uma atrás da outra, as autorizações para pintar paredes nas ruas foram surgindo e hoje já são mais de 15, incluindo fachadas de nomes como Obey, Inti, Vhils e C215. E foi ao procurar novas paredes que o dono da Itinerrance se lembrou de pensar mais além e pedir ao autarca um prédio inteiro que estivesse prestes a ser demolido. “O facto de ir ser destruído dava-me o direito de fazer o que quisesse na fachada”, diz Mehdi. “De início, pensei apenas no exterior, mas quando vi este sítio nem queria acreditar: à beira do Sena, ao lado do metro, perto de uma das grandes portas de entrada de Paris [a gare de Austerlitz]. E pensei: se posso fazer alguma coisa com o exterior, também quero fazer com o interior. Quero fazer a maior exposição de Paris, mas uma exposição sem nenhum objectivo comercial, já que os artistas são convidados a participar voluntariamente e não há nada para ser colocado à venda.” Porque para Mehdi, um galerista de arte urbana não pode ser um galerista normal. “A arte urbana surgiu e mudou tudo. Os artistas aparecem e tornam-se famosos sem passarem pelo mercado de arte, são conhecidos por toda a gente através da Internet e chegam a conseguir vender peças sem precisarem de uma galeria. Têm páginas de Facebook com 300 mil, 400 mil fãs, e isto sem terem feito uma única exposição. Tudo isso me mostrou que um galerista de arte urbana tem de rever a própria noção de galerista, porque se a posição do artista mudou, a do galerista também tem de mudar. Neste caso o trabalho do galerista não é vender, porque se o artista tem 300 mil fãs consegue fazer isso sozinho. O que o galerista tem de fazer é arranjar autorizações e paredes para o artista fazer coisas cada vez maiores e mais visíveis, permitir que o artista possa fazer o seu trabalho na rua mas com meios que não conseguiria obter sozinho. Por outro lado, se o artista é conhecido na rua, o galerista também vai ser e a partir daí pode não fazer apenas uma exposição na sua galeria mas em todo um arrondissement de Paris. É isso que é genial: poder fazer uma cenografia não dentro de um espaço mas na cidade. Como quem diz: este prédio é alto, quero um Obey aqui. Já ali ficava bem era uma fachada de M-City.”

Ao contrário dessas paredes, que podem ser vistas no percurso Street Art 13 e não têm data de extinção, em nenhum momento esteve previsto deixar de investir no projecto da torre pelo facto de o prédio ter a demolição marcada para dar lugar a novas e modernas habitações sociais com os mesmos habitantes, entretanto recolocados. “Essa é a essência da arte urbana, é efémera”, diz Mehdi. “E vamos ter imagens, vamos ter um documentário. Além de que mesmo quando a torre for destruída vai ser possível visitá-la virtualmente.” O documentário de 52 minutos, que acompanhou as movimentações na torre desde Março e inclui reacções dos antigos moradores às peças, vai ser lançado em 2014 no canal de televisão France Ô com realização de Thomas Lallier.

As visitas virtuais fazem parte de um projecto também inédito: durante o mês de abertura ao público, vai estar a funcionar na Internet um site (www.tourparis13.fr) com acesso a imagens das obras, textos e vídeos dos artistas a trabalharem. No dia 1 de Novembro, quando as portas da torre se fecharem, o público vai poder ainda aceder ao site durante dez dias. A ideia é contribuir com fotos das peças (pode-se fazê-lo através do Instagram e do Twitter com o hashtag #tourparis13), mas ao 11.º dia todas as informações e imagens serão retiradas do endereço electrónico, à excepção das fotografias que tiverem sido colocadas pelos visitantes. “São as próprias pessoas que eternizam as peças, que ficam com elas”, comenta Vhils, nome artístico de Alexandre Farto e um dos artistas portugueses convidados a fazer parte da Tour Paris 13.” “É muito interessante este projecto ser efémero porque isso é algo que é intrínseco à arte urbana. As peças desaparecem ou mudam, a fotografia é o que fica.”

Vhils é de longe o street artist português mais conhecido internacionalmente, mas não foi o único desafiado a deixar a sua marca em Paris. Mehdi já o conhecia do projecto de arte urbana no 13 ème — Alexandre Farto tem duas paredes com os seus famosos rostos esculpidos no bairro — mas da realidade portuguesa conhecia pouco mais, e por isso pediu ajuda: escreveu a Lara Seixo Rodrigues, co-fundadora do Festival de Arte Urbana da Covilhã (Wool), e pediu-lhe para ser a curadora de uma comitiva nacional.

Os primeiros artistas chegaram em Abril e até ao fim do processo 11 assinaturas diferentes tomaram de assalto o segundo andar do prédio, pintado de cor-de-rosa para a inauguração e um dos últimos a serem visitados, já que a exposição começa pelo topo e vai descendo até à cave. Os 11 lusitanos são Vhils, Mário Belém, Kruella, Corleone, Pantónio, Mais Menos, Paulo Arraiano, Samina, Eime, Add Fuel e Mar. “Quis mostrar a variedade de linguagens que temos dentro da arte urbana, sempre com a máxima qualidade”, diz a curadora. “É por isso que o grupo inclui artistas com várias técnicas, desde a tinta plástica de Paulo Arraiano à pintura com latas de Mar, ou artistas que pegam na mesma técnica de formas diferentes, como Vhils, que faz um stencil escultural cravado directamente na parede, e Add Fuel, que usa o stencil para fazer uma reinterpretação da azulejaria.”

Ao todo, os artistas portugueses pintaram três apartamentos inteiros. Nesse piso, ficou a faltar apenas um, e a porta de madeira que continua trancada a sete chaves não engana: ainda há aqui moradores que se recusam a sair, esteja ou não o seu prédio debaixo dos holofotes de todas as principais televisões francesas.

(continua aqui)

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s