Coração

Pietro, o inventor

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Numa das minhas últimas visitas à Ler Devagar, e no meio dos discos, dos livros e dos bolos de chocolate, descobri, escondido nas rotativas da antiga gráfica Mirandela, um senhor que me fez sentir em pleno castelo do Eduardo Mãos de Tesoura. Em vez de máquinas sorridentes para fazer bolachas, Pietro inventou insectos saltitantes, monstros com nomes de chefes, cidades espaciais e até máquinas do tempo em miniatura, tudo a partir de materiais reciclados e que incluem coisas como antenas construídas com argolas de um cortinado e bolas de desodorizantes roll-on. Ao longe as suas peças podem parecer apenas mecanismos cheios de roldanas, motores e papéis colados, mas assim que o inventor os acciona, ligando não apenas o power mas, acima de tudo, contando uma história, nascem dias de chuva, árvores vivas, histórias de amor ou autênticos cenários de ficção científica. Recupero por isso aqui parte do artigo que escrevi na Time Out de 19 de Fevereiro. Quanto ao Pietro, está todos os fins-de-semana na Ler Devagar da Lx Factory (de sexta a domingo, das 15.00 às 20.00), para quem o quiser seguir numa das suas visitas guiadas.

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Já aconteceu com todos: um chapéu-de-chuva novinho em folha que não sobreviveu ao primeiro dia de temporal. Aconteceu com Pietro Proserpio, há uns anos. A diferença é que onde muitos veriam apenas varetas partidas prontas a ir para o lixo, o italiano viu as patas de um louva-a-deus mecânico.

O estranho insecto, que ganhou vida com outras peças recicladas como o tubo de um aspirador, é apenas uma das criações que este italiano – que veio para Lisboa aos 11 anos – apresenta todos os fins-de-semana na Ler Devagar, na Lx Factory. Também há cidades espaciais em miniatura que lançam satélites ao som da Odisseia no Espaço, mosquitos loucos que vibram e acendem os olhos e ainda pequenas máquinas do tempo que vão até 2017. Tudo escondido no último andar da livraria, onde estão as máquinas da gráfica Mirandela, que mandava no espaço antes de este ser tomado por livros até ao tecto. É no tecto, aliás, que estão duas das criações mais famosas de Pietro: a bicicleta voadora que até já apareceu na revista Time, e o homem de cartão que parece andar graças a um sistema de fios ligado a motores. “É um sonhador que sonha chegar à Lua com um chapéu-de-chuva”, explica Pietro. “Se ele chegasse à lua já não era um sonhador, era simplesmente um americano.”

Humor e imaginação são os segredos que dão vida às peças, para além dos motores que o artista aprendeu a manipular desde que entrou na fábrica de têxteis do pai e percebeu que “não gostava nada dos fios, gostava era das máquinas”.

Apesar de o documentário sobre si feito por François Manceaux o tratar por artista cinemático, Pietro, com 75 anos e já reformado, gosta mais de definir-se como um mecânico que faz objectos poéticos. “É o que eu me sinto. Pego nas peçazinhas e crio movimentos mecânicos, mas depois dou-lhes alma, que é a parte poética, a história.” Pode ser a história de uma lagarta feita de bolas de ténis que se chama Carolina Match-Point porque consegue jogar com várias patas, pode ser a história de uma árvore viva, pode ser um simples ventilador que faz as vezes de um que inventou há mais tempo. “Mostro-o sempre no fim da visita porque foi o resultado da observação de uma pessoa que disse que as minhas peças eram muito interessantes mas não faziam nada de útil”, conta Pietro. “Eu resolvi fazer um ventilador, porque no Verão está aqui um calor de morte, mas escandalizado por ter feito um objecto prático, uma coisa prosaica, tive de inventar uma história.” E chamou à peça amor. “Porque o ventilador faz vento. E o amor é como o vento quente do deserto, como a brisa matinal junto dos lagos, são os beijos que o vento dá nas velas dos barcos e por vezes arrefece, como o vento do norte”, justifica. Não foi preciso contar duas vezes. “Uma senhora quando ouviu isto comprou-me logo a peça. Eu acho que ela não comprou a ventoinha mas sim a história.”

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Fotografias de Jorge Vieira.

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