Ilustração, Livros

Planeta Tangerina

Hoje a Planeta Tangerina anunciou no blog que o próximo livro, Lá Fora, deve estar a chegar ao armazém, mesmo a tempo da Primavera. Por causa disso, lembrei-me do dia em que fui até Carcavelos, qual sonda enviada a Marte, para fazer uma reportagem sobre a editora para a Time Out Miúdos. Foi por volta de Maio, fazia um sol maravilhoso e o Bernardo Carvalho estava no sótão a trabalhar precisamente nesse livro, um calhamaço escrito por duas biólogas cheio de aves, répteis, árvores e actividades para os miúdos fazerem, num cenário que parecia ele próprio uma ilustração, com janelinhas inclinadas no tecto e desenhos por todo o lado. “Convém pôr as pintas certas nas cobras venenosas”, disse-me ele enquanto fazia um decalque realista. “Só para não ter os miúdos a dizerem: ‘olha mãe, com esta não há problema’.”

Os bastidores da editora e o bom humor de todos  foram para mim uma imagem do que são os livros, e por isso recupero aqui hoje parte do artigo publicado na Time Out Miúdos 2013, com seis livros emblemáticos escolhidos pelos próprios editores:

planeta tangerina

Se fosse preciso fazer corresponder casas com histórias, do género “casa de doces é a de Hansel e Gretel”, “casa de palha é a do porco mais preguiçoso dos três porquinhos”, não seria difícil perceber qual é a casa da Planeta Tangerina. Vêem-se os livros, lêem-se as histórias, olha-se para as ilustrações e só se podia imaginar algo como isto: uma vivenda cheia de sol com salas cheias de bonecos pendurados nas paredes, um sótão onde se desenha noite e dia e um quintal onde se almoça no Verão e na Primavera, haja alguém com paciência para arrancar as ervas daninhas.

As instalações da editora que foi reconhecida na última Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha com o prémio de melhor editora europeia para a infância estão muito longe de um tradicional escritório, tal como os livros estão muito longe de simples histórias encadernadas e se têm vindo a destacar, desde 2006, como álbuns onde tudo é pensado ao pormenor, dos textos às imagens que os acompanham, passando pelas capas e pelo tipo de papel. Ao todo são já 36, incluindo sucessos como Pê de Pai, Coração de Mãe e Quando eu Nasci, ou projectos arrojados como Praia-Mar e Trocoscópio, sem qualquer texto e apenas ilustração.

O Planeta nasceu com poucos habitantes – Isabel Minhós Martins, Bernardo Carvalho, Madalena Matoso e João Gomes de Abreu, todos colegas no curso de Design da Faculdade de Belas-Artes, três deles a partilharem carteiras desde os tempos do liceu na Parede – mas hoje já tem mais três conterrâneos: Yara Kono, ilustradora e também sócia, Cristina Lopes, que trata da distribuição, e Carolina Cordeiro, designer. Porque a Tangerina cresceu, e de um simples ateliê de design e ilustração que resolveu experimentar começar a fazer os seus próprios livros passou para uma editora com várias obras no Plano Nacional de Leitura e direitos vendidos até na Coreia e no Japão. E se a Tangerina cresceu, a estrutura teve de crescer com ela. “Nas editoras tradicionais as tarefas estão mais partidas”, diz Isabel Minhós Martins, que assina a maior parte dos textos, “mas nós aqui gostamos de tratar o livro do princípio ao fim”. Por isso se juntam todos na “sala de reuniões que é também de almoços no Inverno” e atiram ideias para cima da mesa de tampo preto. “Como somos os nossos próprios patrões temos de estar sempre a pedalar e a inventar coisas”, diz Isabel. “O mais difícil é não fazer livros repetidos”, acrescenta o ilustrador Bernardo Carvalho. “Sobretudo porque parece que agora há mais pessoas a tratar de assuntos mundanos como nós. Nunca fomos da fantasia e das fadas ou dos porcos a voar.”

A Planeta Tangerina fala de quintais, de estradas, da praia, de andar na rua ou dos objectos do dia-a-dia. “Temos vidas normais com que os nossos leitores se identificam”, diz Bernardo Carvalho. Sejam esses leitores os miúdos para quem os livros são escritos ou os pais que os compram, o mérito é todo e indiscutivelmente da editora. Fazer do mundano algo tão original e ainda receber um prémio internacional de criatividade por isso, só mesmo de um planeta fora deste universo, nessa galáxia distante que é Alto dos Lombos, em Carcavelos.

Seis livros emblemáticos:

quandoeunasciUm dos primeiros livros da Planeta Tangerina, Quando eu Nasci  “fala das descobertas que fazemos quando nascemos mas tem como particularidade o facto de não ser nada cor-de-rosa ou azul clarinho como normalmente se associa aos bebés”, diz Isabel Minhós Martins. “Se somarmos as cores todas, 80% do livro é preto”, acrescenta Bernardo Carvalho.

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asduasestradasAs Duas Estradas
 faz parte da trilogia de histórias paralelas e conta a história de duas famílias a fazerem uma viagem. Uma segue pela autoestrada e a outra pela estrada nacional. Uma está pintada de vermelho e a outra de azul. Ambas correm lado a lado na mesma página, é só virar o livro de pernas para o ar para conseguir ler as duas.

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amantaA Manta
fala de uma avó que conta histórias aos netos através de uma manta de retalhos. Cada retalho é quase uma vinheta de banda desenhada. É o primeiro livro de Yara Kono na Planeta Tangerina e um dos vários onde a editora deixa adivinhar uma certa nostalgia pelo antigamente.

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quintaisTodo feito com caneta de feltro,
O Livro dos Quintais é para ir descobrindo em cada leitura. Começa com um gato preto que desaparece, Gatuno, e conta a história dos vários vizinhos de um bairro. Cada dupla página tem uma pista para descobrir o felino e corresponde a um mês do ano.

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praiamarSó com ilustrações de Bernardo Carvalho,
Praia-Mar é um livro onde a praia é transformada em personagem e um acontecimento dá origem a tudo: a subida da maré. “É um livro contemplativo”, diz Isabel, “e sai do formato que costumamos fazer porque é muito mais alto. Os livreiros queixam-se até que não cabe nas prateleiras.”

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paraondevamosPara Madalena Matoso, que assina as ilustrações de Para Onde Vamos Quando Desaparecemos?, este foi o livro mais difícil de fazer da editora, não só porque o tema é complicado mas porque “junta uma abordagem leve e filosófica e era preciso que a ilustração não caísse nem para um lado nem para outro”. Nele se dá exemplos de coisas que desaparecem, desde as meias às poças que vão para o céu.

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