Coração

O meu avô

o meu avô - catarina sobralNo mesmo dia em que fui ao lançamento do novo livro da Catarina Sobral, trouxe para casa a colecção de fósforos do meu avô. São mais de cem, de todos os formatos e países, e há fósforos em caixas a imitar dinamite e outros que vieram do Japão. O meu avô morreu há 20 anos, quando eu tinha nove, e por isso nunca pudemos ter uma conversa que fosse para lá das aulas ou da escola, embora tivesse sido ele o primeiro homem a levar-me ao São Carlos para ver um bailado (acho que ele nunca levou a mal o facto de eu ter adormecido no camarote antes do fim) e o primeiro a puxar-me pela veia artística, ao oferecer-me um órgão da Casio. Na altura eu não podia saber, mas dizem-me agora que temos muita coisa em comum, do gosto por lápis de carvão, que ele também coleccionava, ao hábito de ler vários livros ao mesmo tempo, todos devidamente arrumados na mesa-de-cabeceira com os seus preciosos marcadores. E não sei se posso dizer que os temos em comum, porque na verdade não temos, no presente, nem tínhamos, no passado, quando ele ainda era vivo. Os nossos tempos verbais não se encontram porque o nosso tempo físico foi curto e eu ainda não estava pronta. Mas ao mesmo tempo que ando a esvaziar uma casa de seis assoalhadas e me tenho lembrado daquela frase do Gata em Telhado de Zinco Quente em que uma personagem diz: “o animal humano é uma besta que morre e, se tiver dinheiro, compra e compra e compra. E acho que ele compra tudo o que pode porque, no fundo, tem esperança de que uma dessas compras seja a vida eterna”, posso agradecer ao meu avô por, mesmo à distância, não me fazer perder a crença nos objectos e no que fica de uma geração para a outra. Eu hoje senti-me mais perto do meu avô e não foi só por causa de um bonito livro com o mesmo nome. Foram os fósforos que ele guardou de cada canto do mundo e que eu agora tenho comigo, como um tesouro.

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6 thoughts on “O meu avô

  1. Como Reikiana digo-te: acredito piamente que cada momento ou emoção e sentimento ficam gravados no tempo, em objectos ou em locais. As recordações são das coisas mais bonitas que podemos ter. E a nostalgia, essa, dá-nos outro oxigénio. Preserva bem esse pedaço de identidade.

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