Livros

A Noite e o Riso

Na semana passada, enquanto andava no Cais do Sodré à procura de um vendedor ambulante que tem memória do bairro há mais de 20 anos, lembrei-me do livro do Nuno Bragança onde os dancings e bares da Rua Nova do Carvalho não param de aparecer, A Noite e o Riso. Sem precisar de pensar muito, posso dizer que é um dos meus livros favoritos, com a dose certa de poesia na escrita, a dose certa de surrealismo e experimentação, copos e reflexões existencialistas, um amor maior que tudo – ainda me lembro da expressão “és tu, és tu, és tu” e como duas palavras repetidas três vezes dizem tudo – e uma enorme fúria de viver numa cidade que, nem de propósito, é chamada de “Lisboa-a-louca”.

Prendeu-me primeiro o narrador que era uma criança débil de cinco anos e escreve: “a debilidade era o meu forte”; prendeu-me depois o homem apaixonado que sabe que casar com uma mulher como a de que gosta “deve ser o mesmo que meter uma raposa no escritório”.

E prendeu-me tudo aquilo que escrevi na Time Out a 6 de Maio de 2009, quando fizemos na revista uma eleição dos melhores romances de Lisboa, e que recupero aqui:

Nuno BragançaAlguém desligou a luz e deixou Lisboa às escuras. Ficaram algumas portas abertas, mas são as dos bares e dos dancings, e as pessoas que se vêem nas ruas são os homens que se envolvem em lutas e as prostitutas que correm o alcatrão à procura de ganhar a vida. Alguém desligou a luz e esse alguém foi Nuno Bragança (1929-1985), que com o seu primeiro romance, A Noite e o Riso, mergulhou na Lisboa marginal e nocturna.

Pode-se dizer que Bragança escreveu pouco. A sua obra completa, agora reunida num só volume pela Dom Quixote, e que abre com este livro, cabe em pouco mais de 700 páginas. O autor morreu cedo, aos 56 anos, e foi este seu primeiro romance, publicado em 1969, o que mais entusiasmo gerou quando saiu.

Escrito como um tríptico, numa linguagem poética e com muita experimentação formal, há muito do livro que espelha o próprio autor, tal como ele foi mostrado no documentário realizado por João Pinto Nogueira, U Omãi Qe Dava Pulus, recentemente lançado pela Midas numa caixa de quatro DVDs sobre a vida de vários escritores. A paixão pelo boxe, a clandestinidade, a infância excessivamente católica, o álcool, a boémia, os meses em Paris ou a atracção pelo submundo da noite, tudo isto está no livro.

Por oposição à infância aristocrática que o autor retrata no primeiro “Painel” do romance, em textos carregados de ironia e humor, Bragança mostra um fascínio pelo bas fond, e é nos “bairros anti-sabão” como a Madragoa que acredita numa “Lisboa-aos-saltos brutal, talvez infecciosa e hereditariamente carregada. Mas livre e solta como um coelho corre o mato ao cair da tarde.”

A sua Lisboa é a Lisboa suja dos bares, dos dancings, das esplanadas, de Santos, da Mouraria, do Cais do Sodré, dos bordéis e do Intendente, onde o narrador e os amigos vão “pescar pegas” que levam para um descampado entre o Aeroporto e Cabo Ruivo. É a Lisboa dos copos e das bebedeiras, como se os copos fossem o remédio para conseguir viver numa cidade sob ditadura.

“Lisbon is a bum’s nightmare: you can only survive it by getting drunk”, diz um inglês no Cais das Colunas. E esse parece ser o modo de vida do próprio narrador, resumido nesta passagem: “Estou sentado num dancing e tenho a mão ainda em volta de uma bebida de pressão de ar. Às vezes, acontece num sítio destes e em hora assim que o pecado original se derreteu num shaker, acabando-se a mortalidade infantil e a Polícia. Sinto essa harmonia. Por cima dos ombros cansado, como um xaile de leveza dum suspiro de gato.”

Como o título diz, há muito de noite em A Noite e o A Noite e o Riso. E também há muito riso, sim. Mas é um riso cheio de álcool e como uma espécie de resposta ao absurdo de tudo.

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