Livros

Agora e na Hora da Nossa Morte

Se pensar nos livros dos meus autores preferidos, do Rui Cardoso Martins ao David Vann, passando pelo Julian Barnes e a Clarice Lispector, quase todos têm em comum falarem muito de morte, e ao falarem de morte estarem cheios de vida. Nenhum é, no entanto, tão literal como este que me encheu as medidas no final de 2012, uma reportagem/viagem/diário da jornalista Susana Moreira Marques que saiu para as livrarias com o título de Agora e na Hora da Nossa Morte, e ao qual não disse amen, mas quase, na edição número 274 da Time Out Lisboa.

HoraDa primeira vez que fez a mala para ir ao Planalto Mirandês, acompanhar um projecto-piloto da Gulbenkian de cuidados paliativos ao domicílio, Susana Moreira Marques pegou n’A Morte de Ivan Ilitch e guardou o livro para ler mais tarde à cabeceira. Na cabeça levava a ideia de uma reportagem e uma pergunta: “O que é que as pessoas pensam no fim da vida, que sabedoria têm?” Será que passam tudo o que viveram em revista, como o protagonista de Tolstoi? Centenas de quilómetros e dezenas de visitas depois, com “camas articuladas, fraldas, dosagens de morfinas, pensos, pomadas para escoriações, soro, tubos, agulhas”, percebeu que “a morte é principalmente um processo físico (…) e tem pouco de literário.” (p.36) Mesmo assim, escreveu um livro. Um dos melhores livros jamais escritos sobre o sentido do fim, chamado Agora e na Hora da Nossa Morte.

Não é uma reportagem, não é uma compilação de entrevistas ou um diário de viagem, mas é tudo isso ao mesmo tempo. Um livro que se abre com as frases “Há coisas sobre as quais não se pode escrever como sempre se escreveu. Algo muda. Primeiro os olhos, depois o coração – ou os nervos ou aquilo a que os antigos chamavam alma – e finalmente, as mãos” (p.15), e que se fecha precisamente da mesma forma: com a sensação de que algo mudou.

“Quando me sentei para escrever”, conta a jornalista de 36 anos, que fez três viagens à região entre Junho e Outubro de 2011, “percebi que não queria fazer uma reportagem clássica. Por um lado porque gosto de misturar géneros, por outro porque eu senti que este trabalho tinha tido um grande impacto em mim. É um confronto muito duro com o fim da vida, mas depois também há todo um processo de lidar com o que se está a ver, e pensar sobre isso e mudar de ideias, sentir que é preciso viver diferentemente. Esse processo em si também foi uma viagem, portanto eu senti que havia as histórias das pessoas, havia a viagem em Trás-os-Montes, aquela paisagem que a gente não conhece, e havia a minha viagem de perceber o que é que acontece quando se está tão perto da morte. Eu queria que o livro tivesse essas dimensões todas e que o leitor não só fosse àquele sítio encontrar aquelas pessoas, mas também se confrontasse com a morte e pensasse sobre isso.”

Para juntar essa dimensão física e emocional, Susana estruturou o livro em diferentes momentos: primeiro com as “notas de viagem sobre a morte”, onde apresenta instantâneos, reflexões, definições à maneira do dicionário ou até tópicos para um manual de sobrevivência – “Pensar na morte com detalhe. Não pensar no todo.” (p.21) Ou: “fazer das pessoas personagens. Não deixar de sonhar pelas personagens.” (p.29) – e depois com os retratos propriamente ditos, para além de uma selecção de fotografias de André Cepeda, que acompanhou o trabalho. Nesses retratos inclui-se, por exemplo, João e Maria, um casal octogenário da aldeia de Santulhão, ele com um cancro e a puxar “para baixo a camisa clara, bem engomada, para esconder melhor o saco da urina” (p.66), os dois a provarem à jornalista que, para ouvir os entrevistados a falarem sobre a morte, tinha de os ouvir falar sobre a vida: “Não sabia muito bem para que serviam tantas horas de gravação, mas ia-me lembrando do meu próprio avô, que diz que só os ricos têm direito a deixar história, e eu queria dar-lhes esse direito à história. E depois, que sentido faz falar da morte aos 80 anos sem falar de tudo o que se viveu? Seria como ir à terra e não ver a nossa casa.” (p.67)

É a terra, as aldeias que se enchem nas festas de Agosto mas voltam a ficar tristes e vazias nas vindimas, que acaba por dar ao livro uma espécie de ambiente de morte a dobrar. Porque o que está nestas páginas não são apenas as pessoas que morrem em casa, é também uma parte do país: “Há todo um conhecimento rural e uma forma de se relacionar com a terra que está a desaparecer”, diz a autora. “Algumas daquelas pessoas mais idosas, aquilo que as aguenta e as faz levantar de manhã é a terra. É ainda terem as suas batatas, as suas cerejas, as suas oliveiras, e esse modo de vida está a desaparecer. Estamos a deixar aquilo morrer e não é porque aconteceu um cataclismo, é porque ignoramos”, acrescenta a jornalista, que no livro encontrou uma bonita imagem para falar disto: “As pessoas fazem a sua vida entre as casas e as hortas, habitantes de uma pompeia que não teve uma grande catástrofe natural.” (p.24)

Susana Moreira Marques deu por si a falar do fim no fim do país, “no sítio mais longe de Lisboa que se pode ir em Portugal”, na fronteira. Mas no livro, em vez de terminar com a mesma palavra, escolheu antes acabar com uma lista de coisas a fazer depois de regressar da “viagem que ninguém saudável quis fazer”. Como quem diz: não somos imortais mas a vida continua. E se há algo a aprender quando se vê a morte tão de perto, resume a autora, é a “ter menos medo dela e ter um sentido agudo de estar vivo que normalmente não se tem no dia-a-dia”.

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