Entrevistas

Alexandra Lucas Coelho

Descobri-a, como quase toda a gente, nas reportagens escritas para o Público, aquelas que nos faziam ir até ao Médio Oriente numa carruagem do metro apenas com o jornal na mão e a força das palavras e das descrições. Quando fui a Israel, há uns anos, e passeei por Jaffa e Jerusalém, senti que de certa forma já tinha visto aquilo, que já tinha sentido o cheiro do jasmim e que até as vozes me eram familiares. A culpa, claro, era dos textos e depois dos livros de reportagens ou viagens (Oriente Próximo, Tahrir!, Viva México, Caderno Afegão e Vai, Brasil, que acabou de sair e ainda não li). Quando se soube que ia ser publicado o primeiro romance da Alexandra Lucas Coelho, E a Noite Roda, desafiei-a portanto para uma conversa, que acabaria por acontecer nos jardins da Gulbenkian num dia de sol, antes da Primavera. Esse livro onde a vida da autora se toca com a da narradora Ana Blau, uma grande repórter catalã que viaja por Damasco, Varsóvia, Ramallah, Gaza, Jerusalém, Barcelona e Paris, recebeu há dias o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012 e eu lembrei-me da entrevista, que recupero aqui e onde se fala das diferenças entre a literatura e o jornalismo, da memória ou do Mediterrâneo:

E a noite roda, Alexandra Lucas CoelhoA narradora deste romance é jornalista, cobre Israel e o Médio Oriente, vai viver seis meses para Jerusalém e tem 36 anos em 2004. Eu não vou perguntar porque é que ela não se chama Alexandra, mas posso perguntar porque é que ela não é portuguesa?
É evidente que há um jogo com o leitor e esse jogo tem a ver com isto: esta narradora absorve muitas das minhas circunstâncias enquanto jornalista. E isso tem apenas a ver com uma circunstância que existe desde sempre em relação à literatura: como tratar a nossa memória, a nossa própria experiência. Aqui há um prolongamento aparente da autora na narradora porque elas partilham as mesmas circunstâncias. Mas a Ana Blau não sou eu, é uma personagem, tal como o Léon. É o território da literatura e não do jornalismo.

Qual é a grande diferença entre os dois?
Para mim não é uma diferença entre o que é real e inventado, porque a literatura que me interessa fazer tem a ver com o real, com tentar tocar o real. A fronteira entre o jornalismo e a literatura é a liberdade. Como jornalista eu estou condicionada por uma série de regras, enquanto um criador não está condicionado por nada, apenas por si próprio, pelos seus limites. Portanto a diferença decisiva é a liberdade: eu fiz com estes materiais aquilo que eu quis. Os materiais até podem ser os mesmos que usei noutros trabalhos – há situações neste romance, e até figuras públicas, que estão no meu primeiro livro, o Oriente Próximo – mas aqui eu volto a eles de outra maneira.

E porquê voltar a esses acontecimentos específicos?
Eu queria contar esta história, que é a história de uma paixão, tratando essas paisagens de outra forma. Queria tentar uma materialidade na escrita que fosse quase física. É um caminho que vejo que tenho vindo a percorrer como jornalista: foi-me interessando cada vez mais a ideia do texto como uma experiência sensorial, como matéria. Entrando na literatura e pensando que eu me sinto inteiramente livre, então as possibilidades multiplicam-se. Eu vejo isto muito mais como uma expansão do que como o salto de uma coisa para outra que não tem nada a ver. Nunca poderia ter feito este livro sem ter feito antes os outros de reportagens e viagens.

Mas o processo de escrita foi o mesmo?
Foi completamente diferente. Os últimos dois livros, o Viva México e o Caderno Afegão, escrevi rapidamente e de forma condensada, até porque tinha de tirar férias para os fazer. Além de que foram experiências muito coladas às notas de reportagem que eu tinha. Já esta experiência de escrever o romance demorou dois anos, de uma forma intermitente.

Mas não tinha notas? É que temos aqui, como nas suas reportagens, aquela sensação de que de repente estamos no local, seja em Jerusalém ou na Mancha de Quixote.
O que é interessante é que eu aqui no romance não tinha notas. Normalmente tenho muitas, mas ultimamente tenho vindo a seguir um caminho diferente, e acho que isto é um reflexo da tal evolução do jornalismo para a literatura. Sempre tirei muitas notas – voltei do Afeganistão com cinco cadernos Moleskine cheios de uma letra miudinha – mas agora há pouco tempo estive na Amazónia e voltei apenas com dois. Ou seja, desde que escrevi o Viva México que tiro muitos menos notas.

E porquê?
Não sei, tem a ver com esta mudança que eu sinto que aconteceu. Acho que deixou de me interessar o jornalismo diário como interessava. Eu tenho vontade de estar nos lugares, de viver o momento em que aquilo está a acontecer, mas não tenho vontade de escrever sobre isso logo. Interessa-me cada vez mais a distância entre aquilo que foi vivido e o que é que fica disso. Pegando no exemplo clássico da madalena do Proust, que se mergulha no chá para invocar a infância, aqui tratava-se disso: era pegar num momento, como o funeral do Arafat, e tentar reconstituir o que ficou na atmosfera. Mas não a partir das notas, a partir do que ficou em mim. Tudo aquilo que uso no livro, e pode ser um lugar, um diálogo, uma pessoa, tem a ver com a minha própria memória. E é interessante esse mecanismo de como coisas que estavam apagadas voltam ao de cima. Claro que nós nunca saberemos se elas voltam ao de cima como aconteceram, mas essa diferença também me interessa. A Ana Blau a certa altura diz “escrever para que exista”, quase como se no momento em que ela escreve é que aquilo se torna real. É isso que o texto faz, esse é o milagre: há um real que não existia e que passa a existir. Isso é o que eu quero fazer agora: quero fazer romances, quero lidar com o real mas podendo absorver tudo aquilo que me interessa.

Porque é que ela é catalã?
Eu queria que tanto ela como o Léon fossem mediterrânicos, e que fossem figuras em trânsito, que se tivessem desprendido de uma pátria. Isso é fulcral para mim no livro, a ideia de liberdade, de poder passar fronteiras. É por isso que eles vão a Portbou, por causa de Walter Benjamim, que morreu porque não o deixaram atravessar uma fronteira. Isto lida com toda a experiência do século XX, com o Holocausto, e com toda a experiência contemporânea das pessoas que continuam a morrer porque não podem passar fronteiras: os africanos que tentam atravessar o Mediterrâneo e morrem, os mexicanos que querem atravessar o deserto e morrem, as pessoas em Gaza, que estão cercadas. Ou seja, toda esta experiência de homens que não são livres.

E porquê o Mediterrâneo?
Porque a experiência do Médio Oriente é também uma experiência de reconhecimento. Eu tive um professor que foi muito importante, o Cláudio Torres, e de certa forma este livro é um tributo ao trabalho que ele fez sobre as nossas heranças muçulmanas. A experiência de podermos viajar até ao Levante e chegarmos aos portos do Líbano, às praias da Síria, comermos peixe e tomate como eu comi em Jaffa, é perceber que esse é o nosso mundo: é o mundo do pão, do vinho, do azeite. Acho que aquilo que senti quando comecei a ir ao Médio Oriente, quase de reconhecimento, tem muito a ver com isso. E as fronteiras religiosas ou as diferenças culturais não apagam essa base comum fortíssima que podia ser um campo fantástico de partilha, uma forma de iluminar essa visão muito pouco produtiva que é a de nós e o outro. Aquele outro somos nós, e aquele é o nosso mundo. Gaza é o nosso mundo.

Entrevista publicada na Time Out Lisboa de 14 de Março de 2012.

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