Razões para perder a cabeça

Brilha brilha estrelinha

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Livros

Agora e na Hora da Nossa Morte

Se pensar nos livros dos meus autores preferidos, do Rui Cardoso Martins ao David Vann, passando pelo Julian Barnes e a Clarice Lispector, quase todos têm em comum falarem muito de morte, e ao falarem de morte estarem cheios de vida. Nenhum é, no entanto, tão literal como este que me encheu as medidas no final de 2012, uma reportagem/viagem/diário da jornalista Susana Moreira Marques que saiu para as livrarias com o título de Agora e na Hora da Nossa Morte, e ao qual não disse amen, mas quase, na edição número 274 da Time Out Lisboa.

HoraDa primeira vez que fez a mala para ir ao Planalto Mirandês, acompanhar um projecto-piloto da Gulbenkian de cuidados paliativos ao domicílio, Susana Moreira Marques pegou n’A Morte de Ivan Ilitch e guardou o livro para ler mais tarde à cabeceira. Na cabeça levava a ideia de uma reportagem e uma pergunta: “O que é que as pessoas pensam no fim da vida, que sabedoria têm?” Será que passam tudo o que viveram em revista, como o protagonista de Tolstoi? Centenas de quilómetros e dezenas de visitas depois, com “camas articuladas, fraldas, dosagens de morfinas, pensos, pomadas para escoriações, soro, tubos, agulhas”, percebeu que “a morte é principalmente um processo físico (…) e tem pouco de literário.” (p.36) Mesmo assim, escreveu um livro. Um dos melhores livros jamais escritos sobre o sentido do fim, chamado Agora e na Hora da Nossa Morte.

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Tronco e membros

Apanhada na rede

Cardume

O símbolo é um anzol e a roupa não vem em sacos de plástico mas sim embrulhada em papel pardo atado com um cordel, como se fosse peixe comprado na praça. E à primeira vista nem parece, mas a Cardume é mesmo 100% nacional, com uma barbatana na água e um pé na rua, que é o mesmo que dizer que tudo na marca segue o tema do mar (até o cesto de compras da loja online é um “fishing basket”) mas a estética das peças anda à volta do street wear e é completamente urbana. Na minha cabeça, a mesma cabeça onde em tempos chamei parva à Pequena Sereia por querer ter pernas, para a perdoar e perceber logo a seguir, isto é o melhor de dois mundos, como o semi-frio que junta gelado acabado de tirar do congelador e chocolate a derreter. Bem sei que não tenho guelras nem escamas prateadas como talheres, mas mordi o isco e já me agarrei a esta sweat.

Fotografia de Jorge Vieira.

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Arte urbana

Poow!! Boom

Se pensarmos que a melhor definição de arte urbana é algo que interage com a rua e que é pensado para um espaço em particular como os anéis são pensados para os dedos, então um dos melhores exemplos que temos em Lisboa é mesmo este de Pantónio, entre as Amoreiras e Campo de Ourique. Tão bom que já foi feito em 2011, outros murais vizinhos já chegaram e saíram, e a parede nunca sequer foi arranjada. E tão bom que transformou um acidente – literalmente, porque foi uma carrinha que se despistou e subiu pelo passeio como se estivesse para entrar numa garagem – no nosso próprio momento Roy Lichtenstein à beira da estrada. O mais bonito é que muitas vezes vejo um senhor aproveitar os destroços para se sentar a descansar à sombra, e nem me importo de parar nos semáforos vermelhos lá ao lado todo o santo domingo.

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Razões para perder a cabeça

Cadernos Beija-flor

cadernos beija-flor

Tenho um problema com cadernos: adoro-os, colecciono-os, e quando são mesmo mesmo bonitos não os consigo usar. É assim desde sempre, e eu acho que a culpa é das nossas mães e das amigas com quem trocávamos folhinhas e bloquinhos que cheiravam a morango e que não ousávamos estragar. Estes da Beija-flor são desses que apetece ter nas mãos mas fazem tremer a letra. Criados por duas designers que os cortam e cosem à mão nas horas vagas, têm tudo o que me fez, em tempos, sonhar ter uma papelaria ou mudar-me para a Barata da Avenida de Roma quando lá ia escolher o material escolar para mais um ano lectivo: papel reciclado, folhas lisas, lombada cosida e capas que apetece emoldurar. Umas reproduzem padrões de azulejos retirados das ruas do Porto, Lisboa e Aveiro, outras são edições especiais de ilustradores convidados. Como estas de Raquel Graça, “tenho o coração às moscas” e “o meu miocárdio é teu”.

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Entrevistas

Alexandra Lucas Coelho

Descobri-a, como quase toda a gente, nas reportagens escritas para o Público, aquelas que nos faziam ir até ao Médio Oriente numa carruagem do metro apenas com o jornal na mão e a força das palavras e das descrições. Quando fui a Israel, há uns anos, e passeei por Jaffa e Jerusalém, senti que de certa forma já tinha visto aquilo, que já tinha sentido o cheiro do jasmim e que até as vozes me eram familiares. A culpa, claro, era dos textos e depois dos livros de reportagens ou viagens (Oriente Próximo, Tahrir!, Viva México, Caderno Afegão e Vai, Brasil, que acabou de sair e ainda não li). Quando se soube que ia ser publicado o primeiro romance da Alexandra Lucas Coelho, E a Noite Roda, desafiei-a portanto para uma conversa, que acabaria por acontecer nos jardins da Gulbenkian num dia de sol, antes da Primavera. Esse livro onde a vida da autora se toca com a da narradora Ana Blau, uma grande repórter catalã que viaja por Damasco, Varsóvia, Ramallah, Gaza, Jerusalém, Barcelona e Paris, recebeu há dias o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012 e eu lembrei-me da entrevista, que recupero aqui e onde se fala das diferenças entre a literatura e o jornalismo, da memória ou do Mediterrâneo:

E a noite roda, Alexandra Lucas CoelhoA narradora deste romance é jornalista, cobre Israel e o Médio Oriente, vai viver seis meses para Jerusalém e tem 36 anos em 2004. Eu não vou perguntar porque é que ela não se chama Alexandra, mas posso perguntar porque é que ela não é portuguesa?
É evidente que há um jogo com o leitor e esse jogo tem a ver com isto: esta narradora absorve muitas das minhas circunstâncias enquanto jornalista. E isso tem apenas a ver com uma circunstância que existe desde sempre em relação à literatura: como tratar a nossa memória, a nossa própria experiência. Aqui há um prolongamento aparente da autora na narradora porque elas partilham as mesmas circunstâncias. Mas a Ana Blau não sou eu, é uma personagem, tal como o Léon. É o território da literatura e não do jornalismo.

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