Livros

E por falar no novo livro do Julian Barnes

É, como escrevi na Time Out há uma semana, uma maravilha de livro. Uma combinação nada provável entre o amor, a morte e os balões de grande altitude. Se um dia fizer um top 5 dos meus escritores favoritos (um top 3?), tenho a certeza de que o Julian Barnes estará no pódium, e não é só por causa deste Os Níveis da Vida. Para já, fica aqui o texto que saiu na edição nº 320 da revista, bem acompanhado, desta vez, pela Julieta, que como se vê gostava de posar para capas de livros.

Os Níveis da Vida, Julian Barnes (ed.Quetzal)

“Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se.” Esta afirmação, ou uma variação desta afirmação, é repetida várias vezes ao longo de Os Níveis da Vida, de Julian Barnes (n.1946). Nem de propósito, é precisamente isto o que o escritor inglês faz na sua mais recente obra: pega em duas coisas que ainda não se tinham juntado, a morte e os balões de grande altitude, e transforma-nos com um livro que, mais do que nunca, é escrito de dentro e arrancado de cinco anos de luto.

Para quem tenha estado atento, a morte tem sido o tema recorrente dos últimos livros do escritor, desde Nada a Temer a O Sentido do Fim, com o qual Barnes recebeu o prestigiado Man Booker Prize de 2011. E tem sido porque, em 2008, um acontecimento mudou a vida do britânico: a sua mulher durante 30 anos, a agente literária Pat Kavanagh, morreu com um tumor no cérebro. Os Níveis da Vida foi escrito “para a Pat”, mas nem era preciso estar lá a dedicatória no início para o percebermos. À página 66, num breve livro de 112,o escritor muda para a primeira pessoa e atira-nos ao chão com isto: “Estivemos juntos durante trinta anos. Eu tinha trinta e dois quando nos conhecemos, sessenta e dois quando ela morreu. O coração da minha vida; a vida do meu coração. E embora ela odiasse a ideia de envelhecer – aos vinte e tal pensava que nunca passaria dos quarenta – eu ansiava feliz pelo continuar da nossa vida juntos: pelo abrandar e acalmar das coisas, pelo relembrar em comum. (…) Em vez disso, entre um Verão e um Outono houve ansiedade, alarme, medo, terror. Foram trinta e sete dias do diagnóstico à morte. Tentei nunca desviar o olhar, enfrentar sempre as coisas; daí resultou uma espécie de lucidez demente. Quase todas as noites, quando saía do hospital, dava por mim a olhar ressentida e fixamente as pessoas nos autocarros, que iam simplesmente para casa ao fim do dia. Como podiam sentar-se tão ociosas e inconscientes, exibir os perfis indiferentes quando o mundo estava prestes a transformar-se?” (p.66)

O que era até então um livro sobre o balonismo, a primeira subida num balão de hidrogénio, as viagens feitas no século XIX por pessoas mais ou menos conhecidas como a actriz Sarah Bernhardt, o capitão Fred Burnaby e o fotógrafo Nadar, que assim fez as primeiras fotografias aéreas da história, transforma-se num livro sobre a dor e o amor, porque “todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor”. E é nessa passagem, nessa junção de duas coisas que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra, como balões e amor, que o livro se eleva de um simples relato de uma perda – que nunca seria simples tratando-se da elegância e inteligência de Julian Barnes – para um livro daqueles para reler e guardar toda a vida.

“Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado. Às vezes é como a primeira tentativa para prender um balão de hidrogénio a um balão de fogo: preferimos que se despenhe e arda ou que arda e se despenhe?”, lê-se a meio. “Mas às vezes resulta, e algo de novo se faz e o mundo transforma-se. Então, a dada altura, mais cedo ou mais tarde, por esta ou aquela razão, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma do que lá estava. Isto pode não ser matematicamente possível, mas é emocionalmente possível.”

Os paralelismos são imensos, da intensidade e liberdade do balonismo – o primeiro homem que viajou num balão de hidrogénio em 1788, cita Barnes, declarou que tinha sentido uma tal felicidade ao fugir da terra que se “ouviu viver” – ao imenso risco de estar nas alturas e à mercê do vento que sente qualquer apaixonado.

E também há, como explica Barnes, o próprio desgosto, que reconfigura tudo e dá a quem o sofre uma nova cartografia. Mas para além dos paralelismos, há toda a profundidade do que escreve Julian Barnes, todas as suas leituras a serem transmitidas numa fina frase – cita-se por exemplo Antonio Tabucchi e Afirma Pereira, “romance passado em Lisboa em 1938 e muito ligado à memória e à morte” –, e todas as vezes que ficamos sem saber sequer como segurar no livro. Como quando o escritor diz: “Sinto-me menos interessante sem ela. Quando, sozinho, falo com ela, vale a pena ouvir-me; quando falo comigo próprio, não.” (p.74)

Lê-lo, pelo contrário, continua a ser cada vez melhor.

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